“Onde passa uma pessoa com deficiência passa todo mundo”

Participar de grandes eventos que vão dar à luz às trajetórias profissionais é algo que nos motiva a “arrancar” da nossa jornada, um exemplo inspirador para impactar a plateia. Assim, nos preparamos durante dias, treinando e buscando essa história que queremos revelar. Mas, o fato é que, às vezes, a história está no seu presente e não no seu passado. Há poucos dias, tive a honra de participar do maior encontro de mulheres CEOs da América Latina, o “Women on top”, comandado pela jornalista e apresentadora Ana Paula Padrão.

A proposta de contar como me tornei uma pessoa com deficiência e fiz disso um empreendimento em que eu acredito e que já gerou mais de 8 mil empregos a profissionais com deficiência como eu me pareceu tranquila, visto que é uma história que venho contando há mais de uma década, sempre com o intuito de inspirar pessoas com deficiência a perseguir uma jornada promissora e de sucesso profissional.

História roteirizada na minha mente e há poucos minutos de dividi-la com o público, um enredo muito mais impactante atravessou na minha frente e não pude deixar passar. No meio do meu caminho tinha uma rampa! Uma rampa para acessar o palco.

Só quem é uma pessoa com deficiência de locomoção entende o efeito dessa verdadeira “ponte” que nos inclui. Na maioria das vezes, onde não há rampa é necessário a companhia de algum brigadista ou bombeiro para carregar-me ao palco em segurança. É a lei, mas não é fácil para alguém como eu, que vive de estimular a autonomia das pessoas com deficiência, ter que depender de alguém para me conduzir até logo ali acima.

Quando acessei a rampa para o palco, percebi a grande história que as pessoas com deficiência vivenciam todos os dias. A rampa é o meio mais democrático de inclusão, porque não é feita apenas para pessoas que se locomovem por meio de cadeiras de rodas. Ela atende a pessoas com mobilidade reduzida por diversas causas, com dificuldade de movimentar-se, permanente ou temporariamente, gerando redução efetiva da mobilidade, flexibilidade, coordenação motora etc., e que não se enquadram no conceito de pessoa com deficiência.

A minha apresentação que começaria por outro caminho precisou ser alterada. Resolvi iniciá-la falando sobre a importância da rampa que me permitiu estar ali. Sim é necessário falar sobre inclusão da melhor forma: incluindo.

Cerca de 15% da população mundial (1 bilhão de pessoas) tem alguma deficiência. No Brasil, são cerca de 46 milhões de pessoas, segundo o último censo do IBGE (2010). Isso sem contar as pessoas com mobilidade reduzida. É muita gente tentando subir degraus.

A rampa é muito mais que um acesso. É um sinal claro do que sua empresa, seus eventos, sua casa, entendem sobre inclusão. É a materialização da sua real intenção de incluir. Sua importância é a mesma do intérprete de libras durante um evento. São ferramentas essenciais para aumentar seu público, para multiplicar suas mensagens, para abraçar a inclusão de verdade.

As rampas – após a sensibilização de uma companhia aérea brasileira, motivada por apontamentos que fiz sobre minha difícil rotina de entrar nos aviões – substituíram as escadas que permitem hoje o acesso à aeronave com mais agilidade, com mais dignidade, com mais respeito.

Durante o COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Glasgow, na Escócia, iniciada no final de outubro deste ano, a ministra de Energia e Recursos Hídricos de Israel, Karine Elharrar, que tem distrofia muscular e usa uma cadeira de rodas motorizada, não conseguiu participar do evento porque o local não tinha recursos de acessibilidade. Ela declarou “é triste a ONU promover a acessibilidade para pessoas com deficiência, mas não garantir esses recursos em seus eventos, em pleno 2021”.

A fala desolada da ministra teve como motivação a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 2007 pela mesma ONU. Nela, os países signatários comprometeram-se a promover, proteger e assegurar os direitos humanos das pessoas com deficiência.

A acessibilidade é um direito humano. É uma parte importante da construção de cultura de inclusão que vai além de preencher a cota com mão-de-obra de profissionais com deficiência e não é sobre acesso físico somente. A acessibilidade digital também precisa avançar.

Mesmo com aumento das vendas online em decorrência da pandemia, os recursos de acessibilidade disponíveis no e-commerce de forma geral ainda estão muito aquém das demandas. Esses recursos são verdadeiras “rampas digitais” que permitem às pessoas com deficiência interagir e comprar com a mesma autonomia de qualquer outro cliente.

A pesquisa realizada pela BigDataCorp e o Movimento Web para Todos sobre a experiência de pessoas com deficiência na internet, que analisou cerca de 16 milhões de websites e 2 mil aplicativos brasileiros, entre abril e maio de 2021, constatou que menos de 1% são realmente acessíveis no País . Uma triste realidade que não entende a pessoa com deficiência como consumidora, mesmo tendo avançado no mundo do trabalho por conta dos caminhos abertos pela Lei de Cotas.

Esses consumidores querem produtos para eles, pensados neles e nas suas características. Sem adaptações dos originais. Querem, antes de tudo, consumir produtos de empresas que os consideram como clientes. Infelizmente, as pessoas com deficiência e demais marcadores sociais estão sempre na dependência de acontecimentos tristes e trágicos para que as leis e os direitos passem a existir e funcionar.

Episódios como este da COP26 e tantos outros que infelizmente ainda vão acontecer e ganhar notoriedade no mundo, servirão para corrigir uma falha de processo em que os homens se esmeram e insistem em construir degraus que nos impedem de subir, de alcançar, de chegar.

Exatamente no movimento contrário, a rampa nos iguala e quando o mundo entender isso, entenderá muito mais sobre humanidade. Entenderá também, que planejar estruturas com acessibilidade é mais barato que adaptá-la e que garantir esse acesso não é favor. É obrigação. Nem é mais sobre custo. É sobre investimento. É o justo a se fazer. As pessoas com deficiência já enfrentam muitas barreiras e é nosso dever de cidadão reduzi-las. Afinal, no ambiente real e no virtual, onde passa uma pessoa com deficiência passa todo mundo!

* Carolina Ignarra é CEO e fundadora da Talento Incluir, consultoria que já incluiu mais de 8 mil profissionais com deficiência no mercado de trabalho. Está entre as 20 mulheres mais poderosas do Brasil da revista Forbes em 2020. Em 2018 foi eleita a melhor profissional de Diversidade do Brasil, segundo a revista Veja da editora Abril. Desde 2004, atua em programas de implantação de cultura de Diversidade e Inclusão nas organizações e desenvolve a inclusão socioeconômica de profissionais com deficiência.

Para mais informações: https://www.talentoincluir.com.br.