OrCam MyEye – Dispositivo facilita inclusão de pessoa com deficiência visual na vida social e profissional

Inédito no mundo todo, OrCam MyEye, agora também no Brasil, proporciona mais autonomia a pessoas cegas e com baixa visão.

No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, são mais de 6,5 milhões de pessoas (sendo 582 mil cegas e 6 milhões com baixa visão) e que tem acesso mais restrito à educação, à cultura e ao mercado de trabalho. “Cerca de 80 % do que fazemos no nosso dia a dia é relacionado com leitura”, afirma Doron Sadka, diretor da Mais Autonomia, empresa que tem como missão trazer ao Brasil o que existe de mais avançado no mundo para pessoas com deficiência.

Entre as soluções que a empresa trouxe ao Brasil está à inovação tecnológica vestível mais avançada do mundo: o OrCam MyEye, dispositivo de inteligência e visão artificial que proporciona mais autonomia e mais independência a pessoas cegas ou com baixa visão.

O dispositivo consiste em uma câmera inteligente intuitiva – do tamanho de um dedo, pesando apenas 22,5g – acoplada à armação de óculos que lê a informação disponível de forma prática, fácil e instantânea em qualquer superfície de perto ou de longe e a reproduz em áudio discretamente no ouvido do usuário. “Além de servir para pessoas com deficiência visual, a tecnologia OrCam MyEye também produz resultados extraordinários em pessoas com dislexia ou déficit de leitura”, afirma Sadka.

De acordo com ele, o dispositivo lê livros, revistas, jornais, cardápios, documentos, placas de ruas, textos no celular, tablets e computadores, embalagens de produtos, letreiros de lojas, placas indicativas e muito mais. “Ele lê textos e números off line, o que significa dizer que mesmo num lugar sem acesso algum a internet, ele desempenha perfeitamente sua função e com sigilo que, muitas vezes, ao estarmos on line, não temos. Além disso, ele consegue identificar cores e tonalidades, reconhecer pessoas e gêneros, rostos, informar a data e a hora com o simples gesto de girar o pulso, cédulas de dinheiro (reais, Euro e Dólar) e identificar produtos pelo código de barras. E tudo isso em três idiomas”, explica o empresário. No Brasil está programado para português, inglês e espanhol.

O dispositivo repercute a leitura com voz feminina ou masculina, de acordo com a preferência do usuário, de forma agradável e semelhante à leitura feita por humanos. “Pode-se programar a velocidade, que vai de 100 a 250 palavras por minuto. É possível cadastrar o nome de até 150 rostos para identificação personalizada e também 200 embalagens para identificação de produtos. O dispositivo também lê código de barras. São mais de 2,5 milhões pré cadastrados”, acrescenta Doron Sadka.

Isso permite a inserção de pessoas com deficiência visual em funções até hoje inimagináveis. Uma pessoa cega pode, por exemplo, com o uso do OrCam, trabalhar como recepcionista de uma empresa. “O dispositivo irá revelar a ele quantas pessoas estão à sua frente, se são homens, mulheres, meninos, meninas ou crianças e, caso a pessoa já esteja cadastrada, ele saberá o nome da pessoa por meio da identificação do rosto, feita pelo dispositivo”, informa Sadka.

“Sempre tive o sonho de sentar em um metrô e abrir meu livro ou revista para ler como qualquer um. Hoje, como usuária do OrCam, posso fazer isso com grande felicidade”, relata à psicóloga e coach Jucilene Braga.

Já Marina Guimarães, funcionária do Tribunal de Justiça e bailarina da Associação Fernanda Bianchini – Ballet de Cegos, explica que só damos valor a algo quando não o temos ou o perdemos. “Com o OrCam MyEye pude, pela primeira vez na vida, folhear um livro. Não consigo descrever com palavras a sensação de alegria e gratidão. É algo fantástico. Feliz demais ! Isso é inclusão !”.

“Na gestão pública, a prefeitura de São Paulo, que estima ter mais de um milhão de pessoas com deficiência visual na cidade, adquiriu os dispositivos, no ano de 2018, para todas as 54 bibliotecas do município, que contam com acervo de 5 milhões de títulos, num gigantesco exemplo de programa de inclusão que visa democratizar o acesso de pessoas com deficiência visual, dislexia ou dificuldade de leitura à cultura, à educação, à vida social e ao mercado de trabalho”, revela Sadka.

De acordo com o empresário, o mundo literalmente se abre a este público, por meio do acesso a qualquer livro, fazendo com que ele possa se capacitar e ter consequentemente mais autonomia, principalmente no mercado de trabalho. “Isto é uma das formas mais importantes de inclusão”, finaliza o executivo. Até pessoas analfabetas podem se beneficiar com o uso do OrCam nas bibliotecas públicas, por exemplo.

Guilherme Chedide: mudança de vida !

O estudante de administração de empresa, Guilherme Chedide, de 21 anos, nasceu com deficiência visual. Porém, desde a infância tem interesse e facilidade para lidar com tecnologias, principalmente aquelas que podem ajudá-lo a alcançar seus sonhos. Ele conta, nessa entrevista que concedeu à Revista Reação, como foi o seu primeiro encontro com OrCam MyEye e as mudanças extraordinárias que aconteceram em sua vida a partir daquele momento.

 

Revista Reação: Como aconteceu o seu primeiro contato com o OrCam MyEye ?

Guilherme Chedide: Foi por meio de um evento voltado para oftalmologistas na SIMASP. A Mais Autonomia estava lá. Tenho uma oftalmologista na família, uma amiga muito querida que, inclusive, foi quem descobriu minha deficiência visual há 21 anos, quando nasci. Ela iria participar do evento por tratar de temas relacionados à sua área de atuação. Visitei o evento também, fui até lá com esse intuito: conhecer o OrCam MyEye.  Foi paixão à primeira vista. Gostei muito e percebi que o dispositivo me abriria possibilidades, seja na faculdade ou na vida de forma geral. Tive então o ímpeto de conversar com a equipe da Mais Autonomia para fazermos um projeto que levasse o dispositivo para a FECAP, onde estudo. Eu já tinha um trabalho voltado para tecnologia, nas possibilidades que oferece, e, principalmente, em encurtar as distâncias.

RR: Qual a sensação ao usar o equipamento pela primeira vez ?

GC: Tive uma sensação muito boa, pois era algo extremamente novo para mim. Desde pequeno tenho contato com a tecnologia, ela sempre fez parte da minha vida. O OrCam me surpreendeu por ser algo totalmente diferente do que eu já conhecia e que me daria outros referenciais. É uma tecnologia assistiva, vestível, que vem para ajudar as pessoas com deficiência visual principalmente. As funções específicas como leitura, gravação de rosto, reconhecimento de cores e pessoas, identificação de cédulas de dinheiro, possibilitam, por meio da tecnologia, dar essas funções a quem não consegue ver. O que mais me encantou foi à forma com que o equipamento agrega às tecnologias que já temos.

RR: Qual foi o seu primeiro desejo ao saber que poderia ler qualquer coisa a partir daquela momento ?

GC: Essa história começa mais ou menos um ano antes de eu conhecer o OrCam. Teve o acidente de avião com o time da Chapecoense e o jornalista Rafael Henzel, que sobreviveu ao acidente, escreveu um livro chamado: “Viva como se estivesse de partida”. Eu nutria uma admiração por ele. Escutei algumas narrações dele, inclusive com partidas da Chape. Fiquei muito interessado em ler o livro, mas esse foi um desejo que ficou guardado. Na época em que comecei a usar o OrCam, esse desejo retornou. Sou torcedor do São Paulo FC, estou sempre no Morumbi. Iria acontecer uma partida entre a Chapecoense e o meu time e eu iria ao jogo. Aí me veio à ideia de acordar esse sonho e ler o livro. Eu pensei: “Se estarei no Morumbi, e o Rafael Henzel vai estar também para fazer a narração do jogo, por que não tentar algo mais ousado e conhecê-lo ?” Deu super certo ! Publiquei no Facebook e deu uma repercussão muito boa ! Claro que consegui com a ajuda de muita gente ! Foi um privilégio, porque vi como as pessoas se mobilizaram para realizar um desejo meu. Conheci o Rafael no dia do jogo, mostrei a ele o dispositivo. Foi uma honra para mim ! Aconteceu tudo no tempo certo. Infelizmente, no início desse ano o Rafael faleceu, o que me entristeceu bastante.

RR: Como o equipamento ajuda você nos estudos ? Melhorou o seu desempenho ? Como você percebeu isso ?

GC: O equipamento me ajuda muito com a leitura de textos. Ajudou-me muito com a leitura de livros. Eu estudo administração. Trabalhamos muito com estudo de casos de empresários de sucesso aqui no Brasil e temos avaliações voltadas para isso. Em provas de matérias mais discursivas, o OrCam ajuda muito.

RR: Conte como o dispositivo ajudou você abrir novos horizontes na vida profissional.

GC: As pessoas com deficiência visual buscam atuar no trabalho de forma proativa. Por falta de acessibilidade, não conseguimos fazer o trabalho usando um sistema convencional de computador. O computador precisa ter software de voz, o sistema precisa ser compatível. O OrCam vem para dar essa solução. A gente fez um trabalho em parceria com a FECAP, fiz o meio de campo entre a empresa e a faculdade. Então, fui o responsável pela FECAP adquirir o dispositivo, um para mim, porque era um teste, um investimento. Para mim foi bom porque conseguimos que a FECAP se destacasse e com imagem valorizada frente a outras universidades na questão da acessibilidade. O Brasil é um país deficitário em acessibilidade, estamos apenas começando. Porém, a Mais Autonomia e a FECAP, abriram portas para que conseguíssemos elaborar um projeto juntos. Hoje eu participo de outro projeto, voltado para a acessibilidade e inclusão na instituição. O Orcam MyEye precisa estar dentro das instituições e empresas, o equipamento é o meio para se atingir os fins.