Os dinossauros das vendas de automóveis 0KM com isenção de impostos para pessoas com deficiência… Tudo começou com eles !

Estudos apontam que antes mesmo de fechar o terceiro trimestre do ano foram vendidos mais de 200 mil veículos para PcDs com isenção de impostos no Brasil. Um acréscimo de 30 % em relação a 2018. No mesmo período, as vendas de automóveis para o varejo comum e comerciais leves cresceram apenas 8,7 %.

No ano anterior foram comercializados, segundo dados da ABRIDEF – Associação Brasileira da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia Assistiva, um total de 264,3 mil carros com isenção. Houve um crescimento em 2018, de 41 % em relação ao ano de 2017 e ao que tudo indica, para 2019 em relação a 2018, esse percentual deve seguir essa mesma linha, ou seja, um crescimento acima da casa dos 40 %.

Esse crescimento está relacionado ao maior acesso à informação pela população em geral sobre a lei e o convênio que permitem a isenção de impostos para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e seus familiares. As isenções de impostos federais e estaduais – IPI, ICMS, IOF e IPVA – e na capital paulista também a isenção do rodízio – que as PcD têm direito estão em vigor há mais de 20 anos, só que, em 2013 também passou a beneficiar familiares das pessoas que estão impedidas de dirigir, no caso os as pessoas não condutoras, como as com deficiências visuais, mentais e intelectual graves ou físicas também consideradas graves, além de quem tem mobilidade reduzida em graus elevados, como as pessoas com problemas graves na coluna, quadril, joelho, tendinite crônica e outros, além de sequelas motoras decorrentes de doenças graves como diabetes, câncer e outras. As isenções podem baixar o custo do veículo em até 30 % em alguns casos, o que vem chamando a atenção de cada vez mais pessoas que buscam esse direito garantido em lei e pelo convênio do ICMS.

Tudo isso é uma realidade e hoje muita gente usufrui dessa concessão que é dada pelos Governos. Na verdade isso tudo não passa de um “benefício fiscal”, uma espécie de compensação, por conta dos governos terem a consciência de que o transporte público não atende as pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. No início, há mais de 20 anos, as isenções eram concedidas apenas para as pessoas com deficiência física que podiam dirigir os seus próprios veículos, os chamados então de “condutores”. Mas a partir de 2013 isso mudou e os “não condutores” passaram também a ser contemplados, assim como as pessoas com mobilidade reduzida.

Hoje praticamente todas as marcas de automóveis tem interesse nesse público comprador, sejam marcas nacionais ou até mesmo os importados. Na economia atual, nos últimos 5 ou 6 anos, as chamadas “vendas especiais”, vem crescendo e tomando um corpo de importância para montadoras e concessionárias jamais visto antes. Nos últimos 5 anos o volume de vendas com isenção triplicou ! Com isso, os investimentos nesse mercado específico aumentaram, modelos foram criados e outros adaptados para se manterem dentro do limite do valor para ser contemplado pelas isenções totais, que é R$ 70 mil já há mais de 10 anos, congelado. Além dos milhares de vendedores de concessionárias que hoje se interessam em atender o público PcD e se especializam nisso, hoje também é comum ver surgir em todo o Brasil os despachantes e empresas especializadas em isenções. Mas nem sempre foi assim. Lá no início de tudo, há mais de 20 anos, as “vendas especiais” eram o “patinho feio” das montadoras e concessionárias. Ninguém queria atender o público que comprava veículos 0KM com isenção. Era um mercado considerado pequeno, as vendas eram demoradas, poucos sabiam do seu direito e praticamente não havia vendedores especializados no segmento.

Neste cenário, dois paulistanos se destacavam na época em todo o Brasil nesse atendimento. Eles foram os precursores de tudo isso que se vivencia hoje nas chamadas “vendas especiais”. Eles abriram o caminho, ensinaram muita gente, são os verdadeiros responsáveis por muito do que se tem hoje, porém, essa nova geração que atua no segmento pode ser que em sua maioria, nem os conheça. Por isso, a Revista Reação resolveu aqui contar essa história e fazer essa homenagem a esses dois ícones, dois “dinossauros” das “vendas especiais” no Brasil: Cleide Xavier e Carlos Roberto Perl !

Cleide e Carlos Roberto: o início das vendas com isenção !

Muitos usufruem desse mercado, mas poucos conhecem realmente como tudo isso começou. Vamos conhecer mais sobre esses dois personagens que fizeram a história desse, que hoje é o segmento que mais cresce na indústria e no comércio de veículos em nosso País:

Carlos Roberto Perl é administrador de empresas e conomista de formação. Nas últimas décadas dedicou sua vida às pessoas com deficiência. Atualmente não atua mais nas vendas de automóveis, mas lá atrás foi ele um dos que iniciou todo esse processo e atuou nesse mercado por mais de 20 anos. Ele iniciou essa trajetória no segmento trabalhando com a venda de automóveis, quando quase nem havia isenção de impostos para PcD. Desde então, são mais de 30 anos de envolvimento e dedicação às pessoas com deficiência. Com participação ativa em várias entidades, projetos e esferas de governo, com o tempo transformou a causa em sua razão de viver, ao lado de sua esposa Clarice.

Mas foi ainda jovem, trabalhando como vendedor em uma concessionária de automóveis da marca Chevrolet na capital paulista, deparou-se com um cliente em uma cadeira de rodas. Como nenhum colega se dispôs ao atendimento daquele cidadão, lá foi Carlos Roberto ao seu encontro. A constatação de que não entendia nada sobre o assunto, como as isenções de impostos a que esses clientes já tinham direito naquela época, fez com que ele entrasse a fundo nesse universo, grande estudioso de leis, foi pesquisando e se inteirando sobre o tema. Na mesma hora surgiu dentro dele, um sentimento até de revolta perante o preconceito em relação às pessoas com deficiência e a falta de conhecimento sobre seus direitos. Daí para frente, Carlos Perl começou a trajetória que o levou a não só ser o maior vendedor de veículos 0KM para PcD dentro da marca Chevrolet por muitos e muitos anos, como também a participar das principais lutas do segmento e fazer parte de diversas entidades nas últimas três décadas.

Nossa outra entrevistada é Cleide Xavier de Souza, com formação universitária na área Trabalhista – Gerente de RH – ela foi jogadora de Hand Bol, e de um dia para o outro parou de andar. Na época não existia a facilidade de exames de ressonância. A medicina era bem mais deficitária. Depois de muitos anos constataram que ela havia tido Esquistossomose.  “Quando me tornei uma pessoa com deficiência, na década dos anos 80, entendi que seria aceita somente se tivesse algo a mais. Como naquela época poucos chegavam ao curso superior, principalmente mulheres, foram meus diplomas que abriram as portas para que eu fosse aceita profissionalmente e pessoalmente”, lembra Cleide.

“Na época, eu tinha um Opala Adaptado, mas como consumia muito combustível era quase impossível com salário baixo conseguir sustentar e continuei com minha pesquisa para encontrar um caminho. Na minha busca pessoal conheci pessoas que se interessaram por mim, e me convidaram para que eu trabalhasse no setor automotivo. A princípio resisti bastante. Mas foi inevitável. Iniciei minhas atividades no ano de 1983, com a Fiat Automóveis”, afirma Cleide.

Carlos Roberto começou a atuar no mercado um pouco antes do que a Cleide, ainda na década de 1970. “Era uma época em que o preconceito era muito grande e os poucos direitos que as PcD tinham eram totalmente ignorados e desrespeitados. Tivemos grandes ativistas naquela época, que muito lutaram para que esses direitos fossem respeitados e que novas leis fossem criadas. Acessibilidade e mobilidade urbana, simplesmente não existiam. Mas, graças a esses verdadeiros heróis, a sociedade começou a se organizar. Surgiram os primeiros Conselhos de Direitos das Pessoas com Deficiência compostos por pessoas com e sem deficiência, trabalhando lado a lado por sua inserção na sociedade. Existiam poucas Associações que atuavam nesse segmento e poucos Centros que faziam o trabalho de reabilitação. Nos últimos anos, temos andado a passos largos comparado ao passado”, conta Perl.

Se hoje existem direitos garantidos, Carlos Roberto e Cleide estavam na ponta da linha levando as PcD e seus familiares às poucas informações que existiam.

“Atuei na divulgação das isenções existentes. Naquela época, uns poucos tinham conhecimento delas, não existia a Internet e praticamente nem despachantes que atuavam com isenções. Então tínhamos de ler livros e também os Diários Oficiais – municipal, estadual e federal. Comecei atuando junto com outras pessoas do movimento para melhorar e expandir o que já existia nas leis, a princípio, de isenções na compra de veículos 0Km, e trabalhar por suas prorrogações. Nunca foi tarefa de uma pessoa só, mas de um conjunto delas que atuavam na mesma causa que, em virtude da dificuldade de comunicação, não sabiam da existência uns dos outros”, comenta Carlos Roberto.

“Naquela época, transportes públicos acessíveis eram um mero sonho e pouquíssimas pessoas tinham informações sobre leis de isenções. Assim, pudemos chegar até as pessoas com deficiência com informações para viabilizar a aquisição de seu meio próprio de transporte. Foi uma época bastante difícil, pois não existia a Internet. As pesquisas eram feitas na ‘raça’. Se hoje a maioria das concessionárias, de diversas marcas tem atendimento para PcD, temos nossa parcela de ‘culpa’ nesse avanço”, diz Carlos Roberto.

Cleide comenta que as únicas montadoras e primeiras no Brasil, com veículos para PCD eram a Fiat e GM. “Iniciei com trabalho em Concessionária Fiat, com treinamento para vendedores na Rede, onde usávamos sistema de adaptação com embreagem automatizada, o que não era a melhor opção no sentido de conforto. Porém era a única que pessoas com poder aquisitivo baixo, como eu, poderia adquirir um veículo. Sem dúvida os carros da Fiat eram os melhores adaptáveis. O Uno 1.5, Palio, chamados veículos básicos Pé-de-Boi. Eu vivenciava essas dificuldades e conseguia entender e ensinar como ninguém ! Lembro quando pela primeira vez no Brasil foi colocado na mídia algo sobre PcD. A Fiat tinha Test-Drive no Shopping Center Norte com veículos adaptados para PcD, com uma Elba (modelo Fiat da época) ! Anunciaram num jornal de grande circulação em São Paulo/SP. Eu estava lá ! O resultado do anúncio foi algo impressionante. Centenas de pessoas com deficiência queriam ver pela primeira vez como uma pessoa com deficiência poderia dirigir. Pessoas de São Paulo, Campinas, Santos, Ribeirão Preto… Meu Deus, muita gente ! E eu demonstrava o carro adaptado. Imagina 5 cadeirantes num Elba ? Era assim: muletas, cadeiras rodas, maravilhoso trabalho”.

“Tenho orgulho em ter vivenciado esse trabalho no Brasil. Foi como uma escolha divina, e sem duvida, em todos os momentos coloquei o meu melhor, analisando cada caso e colocando a melhor opção! Mesmo que em determinados momentos perdia uma venda por entender que a melhor opção era outro tipo de produto”, afirma Cleide Xavier.

Existe uma relação de amizade muito bonita entre os ícones da venda de veículos para PCD no Brasil. Cleide comenta sobre “ser a primeira cadeirante, em trabalhar no Brasil em uma montadora. Ser a primeira pessoa no Brasil dirigir veículo mecânico adaptado”. Mas o que ela

Comemora muito e ter sido – junto com Carlos Roberto Perl – os primeiros no Brasil a vender veículos adaptados com isenções para PCD.

Carlos Roberto e Cleide. São dois nomes que precisam ser lembrados toda vez que um PCD ou seu familiar abra a porta de um veículo que foi adquirido com algum tipo de isenção. Todos precisam lembrar que esses dois profissionais não foram apenas ‘Representantes de Concessionárias ou Montadoras’. Foram Representantes da bandeira da PCD em lutar enormes, e mesmo que com poucas armas e argumentos conseguiram fazer com que esse direito fosse garantido. A Revista Reação, assim, homenageia esses dois grandes profissionais e seres humanos.

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