OS EMBAIXADORES DA INCLUSÃO

por Débora Goldzveig

“O complexo fraterno define uma organização fundamental de desejos amorosos, narcísicos e objetais, do ódio e da agressividade em relação a este outro que o sujeito reconhece como irmão ou irmã.”(p 141). Freud (1920) sublinhou o valor que a rivalidade fraterna exerce na determinação da escolha do objeto sexual e no âmbito da eleição vocacional.

Etmologicamente, a palavra “fratria” vem do Latim germanus, que quer dizer “verdadeiro”. Eles diziam frater germanus para “irmão propriamente dito”, filho do mesmo pai e da mesma mãe”. Em Português e Espanhol (hermano) a palavra que predominou para “irmão” foi a segunda; nos dois idiomas que você cita a que ficou em uso foi frater.

Ser irmão ou irmã de uma pessoa com deficiência implica em uma dedicação constante, mesmo que implícita, para construção de um futuro mais tranquilo e equilibrado. Para isso é importante trazer à tona reflexões sobre os sentimentos cuja origem nem sempre é prazerosa, gerados em irmãos típicos (sem deficiência) com enfoque na necessidade de pertencimento, inclusão e liberdade de escolha, que  são extremamente relevantes no desenvolvimento de habilidades inerentes a sujeitos mais inclusivos e plurais. 

A partir desse autoconhecimento é possível construir relações com maior cumplicidade, amizade, resiliência, respeito e empatia, que influenciam positivamente a sociedade de uma forma geral. 

“Ter um irmão já é por si só uma castração Freudiana”, diz Débora Goldzveig, idealizadora do Projeto Irmãos. Foi a partir de sentimentos observados que geram incômodos como raiva, insegurança, ciúme, auto-cobrança, injustiça, tristeza, vergonha, culpa ou até certa nulidade, que houve a necessidade de se ressignificar para incluir. Dessa forma, surge o Projeto Irmãos, “Respeitando as diferenças. Ressignificando identidades”, como diz o slogan. 

Um espaço seguro de acolhimento que promove a escuta e compartilhamento entre irmãos de pessoas com múltiplas deficiências que tem se mostrado extremamente eficaz à medida fortalece a identidade desses irmãos. Esses que mesmo com realidades distintas, ao compartilharem experiências em comum, encontraram um novo lugar de pertencimento e propósito de vida. Por isso o termo “embaixadores da inclusão”.

Funciona como uma ponte para descobertas, recolocações profissionais, encorajamento às decisões de vida. A atuação vai muito além do foco no irmão, mas em si mesmo para grandes mudanças de vida.

A metodologia utilizada tem como preliminar a construção em rede envolvendo a família direta e estendida, setores público e privado. O Projeto Irmãos é mais do que um grupo assistencialista, é uma consultoria de grande alcance em todas essas esferas atuando através de workshops, palestras, rodas de conversas e vivências. 

Se tratando de um olhar inclusivo que é transversal a todas as posições que assumimos na vida (mãe, pai, chefes, colaboradores, amigos, primos, voluntários…),  as parcerias são as mais variadas  trabalhando  desde a tríade educação, saúde e assistência e desenvolvimento social à cultura, pesquisas científicas, lazer, mobilidade urbana, inovação e tecnologia, habitação e políticas públicas. Todas essas temáticas são abordadas sempre em paralelo com o desenvolvimento de habilidades socioemocionais através de processos meditativos, coaching, mediação de conflitos e exercício da Comunicação Não Violenta (CNV). 

As vivências com parceiros são nitidamente a ampliação de olhar para diversidade. Quando abordamos essas temáticas, através da perspectiva dos irmãos, abrimos espaço para falar de sexismo, branquitude, xenofobia, racismo, bullying, gordofobia, grupos estigmatizados e minorizados que precisam ser ouvidos e melhor compreendidos para serem aceitos e terem acesso à isonomia de direitos.

Atualmente grupo tem aproximadamente 70 membros reunidos em um fórum de Whats App, que em tempos de pandemia, tem se encontrado virtualmente para discussão de temas como liderança e diversidade, educação, autonomia, sexualidade, formas de comunicação, capacitismo, moradias independentes, construção de redes de apoio, reconhecimento de competências, sustentabilidade financeira, formação profissional, cidadania, políticas públicas, autoconhecimento, perdas, nutrição, esporte, cultura, acessibilidade, pesquisas, genética, envelhecimento… e ainda há muito mais a ser explorado! Os encontros apenas entre irmãos geralmente são acompanhados por uma neuropsicóloga. 

O Projeto Irmãos atua sem limite de fronteiras tendo membros e parceiros nacionais e internacionais. Um diferencial é que também é utilizado o expertise, riqueza de conhecimento, de cada membro para capacitações e workshops. Outro ponto a destacar é o envolvimento de voluntários como designers, produtores de vídeo, fotógrafos, eventos, nutricionistas, músicos, entre outros que se se envolvem com a causa. 

“A partir do momento que instituições de ensino, empresas, núcleos familiares, entenderem a importância dessa convivência fraterna que gera vínculos afetivos capazes de desmistificar e desconstruir preconceitos, acreditamos que será mais orgânica a transformação deste coletivo em um Negócio Social.” diz Débora. Hoje o grupo é autossustentável, captando recursos apenas para projetos específicos.

Mesmo com toda essa abrangência, o maior desafio é mostrar para sociedade a importância do grupo cujo foco de atuação não é especificamente na pessoa com deficiência, mas em seus irmãos como vetores de inclusão. Em um encontro com a Sibling Leadership Network, Instituição cuja atuação é exclusivamente na atuação junto a irmãos de pessoas com deficiência em Chicago, foi constatada a mesma dificuldade na hora de conseguir aportes. 

Mesmo dentro do grupo, há dificuldade de frequência, principalmente dos homens. Talvez pela característica de vivermos em uma sociedade eminentemente patriarcal e machista, sem conotação pejorativa, mas como reflexo sócio histórico pois ainda hoje é notável a disparidade entre os gêneros, apesar de grandes avanços dos direitos femininos, o movimento dos homens não está equiparado aos cuidados na esfera familiar, tendo como consequência, o papel feminino como pilar hegemônico nas tarefas relacionadas ao cuidar (adaptado de ABOIM, 2006; SARTI, 1999). Além de que é muito comum, independente do sexo ou temática,  a procrastinação para falar de algo que nem sempre é um tema leve. 

Por fim, o grupo é uma forma de incentivar articulações e movimentos  de conscientização e equidade pelos direitos das pessoas com deficiência. Uma forma de rejuvenescer o movimento de inclusão que vem conquistando cada vez mais espaço na sociedade. 

  • Débora Goldzveig é idealizadora do Projeto Irmãos, atualmente Coordenadora de Relações Institucionais da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo/SP. Publicitária com especialização em Gestão e Inteligência de Mercados, Inovação Social, Gestão das Diferenças e Práticas Inclusivas. Irmã do David, Síndrome de Down.

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