Os Surdocegos e Multideficientes e a Pandemia

Estamos realmente saturados de tantas informações sobre a pandemia causada pelo Coronavirus em todo o Mundo. Sim, apesar de nossa fadiga mental isso é uma realidade que está nos afetando, e, portanto, a nós, devemos ter paciência e redobramos nossos cuidados para que não sejamos contagiados.

Muito se falou muito se escreveu, sim, mas, nós, que integramos os Movimentos Nacionais e Internacionais de Defesa das Pessoas com Deficiência ainda observamos que pouco ou nada é tratado especificamente sobre esta temática há nós Pessoas com Deficiência.

Se num âmbito geral – Pessoas com Deficiência – a temática é pouco ou nada refletida, imaginemos o que resta as Pessoas com Deficiência mais específicas como os Surdocegos e Multideficientes!

Muitas pessoas, de várias partes do Brasil, fizeram contato comigo afim de que eu descrevesse algumas orientações sobre “Pessoas Surdocegas e Multideficientes e a Pandemia”.

Desde já, portanto, irei buscar colaborar, de maneira simples, direta, mas, efetiva!

Inicio com uma pergunta básica: Em um contexto de Pandemia e da necessidade urgente de prevenção da transmissão do vírus, onde se encontra a especificidade dos Surdocegos e Multideficientes?

Na comunicação! Sim. Em tese os Surdocegos e Multideficientes necessitam tocar para se comunicar. E ao tocar a outra pessoas, lógico, o risco de contágio aumenta. Este é o ponto X desta questão que estamos vivendo. Nem todos os Surdocegos e Multideficientes precisam tocar para se comunicar, pois, muitos ainda possuem bons resíduos de audição, de visão ou ambos, porém, a situação se complica para aqueles que o tocar para se comunicar é fundamental.

Com essa questão do vírus, os Surdocegos e Multideficientes que necessita tocar para comunicar estão entre a faca e a parede!

Muito duro, sim, mas nesse momento os Surdocegos e Multideficientes devem se “fechar” ainda mais do que já é cotidianamente. Na real, vivemos em “isolamento” altíssimo se comparado a outras pessoas, eles, eu, nós, vivemos sim numa “quarentena cotidiana”. Os parcos contatos que temos acontecem via pessoas que estão próximas a nós e este seria o X neste momento. Os Surdocegos e Multideficientes devem apenas receber a informação, se comunicar, com uma pessoa ou no máximo duas pessoas. Estas, uma ou duas pessoas, logicamente devem saber – muito bem – que devem se cuidar. Elas vão orientar o Surdocego e Multideficiente a fazer o mesmo.

O que eu quero dizer? Os Surdocegos e Multideficientes vivem em “quarentena” diária e possuem uma gigantesca cede de se comunicar e assim tocar e tocar as pessoas. Se tiver a chance, e com a cede comunicativa, podem fazer isso com muitas e muitas pessoas num espaço de tempo curtíssimo.

Assim, considero importante que os Surdocegos e Multideficientes, neste momento de Pandemia, se conectem, no máximo, a uma ou duas pessoas, para se comunicar. Um ou dois contatos já está de bom tamanho para este momento. Um batalhão de guias – interpretes, por exemplo, iria extrapolar a vigilância sobre a transmissão de um vírus.

Minhas constatações aqui não são algo novo, são apenas reflexões-orientações de acordo aos acontecimentos decorrentes da Pandemia e decorrentes, claro, de minha vivencia como Pessoa Surdocega, com Hidrocefalia e Doença Rara que sou e assim a de tudo, decorrentes das minhas relações com Surdocegos e Multideficientes do Mundo.

Possuo a liberdade para analisar, sim, para milhares de Surdocegos e Multideficientes a Pandemia em praticamente nada altera sua vida. Já vivemos cotidianamente a exclusão e o abandono por parte de Governos e Sociedade, desta maneira, acostumamos a viver debaixo de nossa carapaça. Isso poderia ser diferente, sim, poderia, mas, ainda estamos longe de mudanças efetivas.

Tenho muitos defeitos e um destes é ser detalhista ao extremo. Passarinhos verdes me contaram que tem gente escrevendo assim:

Que se os Surdocegos e Multideficientes têm comunicação X deve fazer isso e aquilo. E se possui comunicação Z deve fazer isso e aquilo.

Não. Nada ver. Neste momento isso não é necessário. Os Surdocegos e Multideficientes e seus apoiadores devem, antes de tudo, saber o global da prevenção. E, então, cada um, com seu raciocínio, agir de acordo com sua necessidade.

Nada tem a ver Comunicação X ou Y ou Z com a transmissão. Nada! O método de comunicação não se altera. O que está em jogo são cuidados de higiene, ou seja, a transmissão ocorre com maior freqüência e de maneira “invisível” pelo tocar e ser tocado.

Os Surdocegos e Multideficientes tocam as mãos de uma pessoa, ou são tocadas por esta, que por ventura esteja infectada e, então, poderá contrair o vírus. A higiene das mãos e punhos das pessoas que pretendem tocar, comunicar com Surdocegos e Multideficientes é fundamental, e, logicamente, a mesma higiene dos próprios Surdocegos e Multideficientes é igualmente importante.

Costumo bater sempre nesta tecla, da explicação clara para que não restem dúvidas. Os Surdocegos e Multideficientes são pessoas, que por suas enormes barreiras comunicativas, logicamente possuem muitas dúvidas a cerca de temas que nos cercam, e este tema pandemia, claro, não é diferente. Assim, fundamental, logo após Surdocegos e Multideficientes estarem em contato com seus apoiadores, estes, com paciência, explicarem muito bem sobre o que esta acontecendo, sobre o que e a pandemia e porque esta necessidade higiene.

Eu considero a pior tortura quando Surdocegos e Multideficientes são deixados sem respostas claras, ou seja, quando são mergulhados no mundo da dúvida.

Desejo a todos e todas, Saúde e Paz e que possamos vencer esta guerra contra nosso inimigo comum e invisível!

*Alex Garcia – Pessoa Surdocega, com Hidrocefalia e Doença Rara, Diretor Presidente da AGAPASM -Associação Gaúcha de Pais e Amigos dos Surdocegos e Multideficientes e Colunista na Revista Reação