PONTO DE VISTA – Superproteção: atitude limitadora

 

* Por Suely Carvalho de Sá Yanez…

 

Mãe, me traz água!
Claro, minha filha (23 anos) !

Filhinha (20 anos), vem almoçar. Já fiz seu prato !

Aonde você quer ir filho (30 anos), que eu te levo ?

Não precisa de nada querida (19 anos) ! Eu faço tudo pra você !

Você pode se machucar filho (28 anos), fica longe da cozinha !

Coitadinho, ele não enxerga, precisa de ajuda para tudo.

Ela (22 anos) vai aprender a cozinhar ? Perigoso demais (olhos umedecidos da mãe)!

 

O que podemos perceber nessas frases (baseadas em fatos reais) ? Será que existe algo inadequado nessas falas ?

Lembro-me de muitos rostos de jovens me relatando nas triagens dos atendimentos sobre o que ouviam, como também familiares assustados reagindo a um programa de Reabilitação para pessoas com deficiência visual.

Haviam muitas perguntas, dúvidas e pensamentos não ditos verbalmente, mas revelados nas expressões faciais.

Quando impedimos alguém de realizar tarefas básicas, pode ser um agrado, mas pode ser também, porque consideramos que não tem capacidade para realização (esta abordagem é baseada na superproteção. Sabemos que existe a rejeição e outras situações familiares nesse aspecto).

 

Superproteção

 

Pode ser uma consequência de um amor enorme. Pode ser consequência da insegurança de quem diz tais frases citadas, por medo de “perder” a pessoa ou mesmo até, a ignorância do que esse comportamento pode representar ou estigmatizar uma pessoa. 

Consciente ou inconsciente, um comportamento de superproteção promove o sentimento de incapacidade nas pessoas, dando a elas a “justificativa” de ficarem paralisadas, estagnadas, imaturas, tornando-as dependentes de outras, acomodadas, com baixa autoestima, inseguras para realizarem tarefas possíveis e, quando elas estão em contato com outras pessoas com autonomia, com frequência, ficam sujeitas à segregação, exclusão de programações, como: passeios, viagens, trabalhos e até relacionamentos.

Superproteção é “dizer” que a pessoa não tem capacidade de fazer alguma tarefa e que deve sempre depender de pessoas: da mãe, do pai ou outras. É limitar realizações e prazeres da vida, oprimindo a pessoa para não viver o seu mundo, mas o mundo de quem está “cuidando”.

 

Um caso

 

Um jovem, 24 anos, chegou do interior de outro estado com respaldo de um abrigo de pessoas desamparadas. Este jovem (vamos chamá-lo de “João”), vivia com a mãe, sem parentes vivos. Essa mãe o superprotegia por ter deficiência visual, segundo o relato. Infelizmente ela faleceu e ele ficou só. Quando João chegou para ser atendido no serviço de Reabilitação, não se alimentava sozinho, não realizava atividades de higiene pessoal adequadamente, andava conduzido com os seus braços cruzados e não se achava capaz de realizar atividade alguma. Sentia-se desrespeitado pela falta de autonomia, o que lhe desencadeou, muitas vezes, choros compulsivos. O início do trabalho de Reabilitação foi o desafio de desconstruir a crença de incapacidade para a construção da crença da possibilidade. Proporcionar autonomia é proporcionar respeito e dignidade.

 

Então…

 

Somos cruéis por incentivarmos uma pessoa com deficiência visual e/ou sua família a acreditar que é possível realizar tarefas do dia a dia (nessa abordagem não estamos consideramos pessoas com comprometimentos que podem afetar sua integridade física/segurança) ?

Quantas vezes já gastamos horas com familiares e/ou cuidadores na conscientização de que a prática das Atividades da Vida Diária (AVD), contribui para que parte da identidade de cada pessoa seja estabelecida. As AVD incluem: alimentação, vestuário, higiene pessoal, uso de utensílios domésticos, lazer etc. 

Quem já passou por essa experiência sabe. É impagável presenciar a alegria de uma pessoa realizando tarefas com autonomia (em cada etapa). O mínimo de autonomia já é o máximo para quem conquista o que já tem (e muitas vezes nem sabe): a capacidade e potencial de realização que todos têm. 

 

Reforçando

 

O amor capacita, permite que as pessoas cresçam, se desenvolvam e amadureçam. A superproteção pode ser considerada uma disfunção, pois pode anular a pessoa que precisa se desenvolver e muitos não compreendem a gravidade disso. Ouvimos muito: “eu amo tanto… por isso que eu cuido ! Tenho medo que caia e se machuque”. 

Então… é necessário compreender que o cuidar, também é deixar a pessoa passar por experiências, senão, não irá aprender. Lembramos que uma criança aprende a andar,  caindo.

Por fim… vale considerar um aspecto importante, que sempre ressalto: se a pessoa atendida tiver quem faça as tarefas por ela, que bom ! Mas… que saiba fazê-las também ! 

Nesse período de pós pandemia pela Covid-19, com os devidos cuidados e protocolos, é importante procurar um serviço sério de Reabilitação.

 

 

  • Suely Carvalho de Sá Yañez é Terapeuta Ocupacional especializada em Orientação e Mobilidade para pessoas com deficiência visual e atua na área de reabilitação e Consultoria.

 

suelydesa@hotmail.com

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