Presentes que a vida traz

Saímos de uma apresentação de dança, ainda tínhamos tempo para um sorvete na Bicota, onde o Pedroca adora o sorvete de morango feito lá. Faltava uma hora para a fisioterapia e estávamos com tempo. Estacionei o carro em frente ao Supermercado Sinhá, na avenida Floriano Peixoto. Estava montando a cadeira do Pedro, quando ele olhou para o passeio e arregalou os olhos. Perguntando o que era, ele olhou fixo para um pé para fora de uma coberta, na calçada. Eu expliquei para ele, que alguém estava dormindo e que infelizmente existem pessoas que moram nas ruas. Ele não desviou o olhar. Ao seguirmos, ele virou a cabeça pra trás. Incomodado.

Chegou à sorveteira olhando para a porta. Olhou para o sorvete e olhou para a porta. Eu disse: “eu entendi, filho, você quer levar sorvete para a pessoa que está lá ?” Ele sorriu, gritando ! O dono da sorveteira ficou espantado como o Pedro sabe demonstrar tudo que ele quer. Ele tomou o sorvete aflito, rápido, sem tirar os olhos da porta. O pé para fora da coberta não o assustou, mas o intrigou ! Perguntei qual sabor poderíamos levar para a pessoa. Ele olhou pra porta.

– Não quer levar ?

Ele sorriu que não ! Eu disse: “Ok, filho !”

Ao sair, passamos na porta de uma lanchonete árabe e tinham esfirras expostas. Pedro esticou braços e pernas. Tremia todo !

– O que foi meu filho ? Assim você me assusta.

Ele olhou para a esfirra e para o passeio.

– Ah, agora eu entendia tudo.

Não era sorvete, era algo mais substancioso que ele queria levar para a pessoa que ele só tinha visto o pé pra fora.

O moço perguntou se queria que esquentasse. Pedro sorriu que sim. Era ele quem estava comprando. Era ele que comandava todo esse movimento. Eu só seguia o que ele me mostrava.

Chegamos lá. Pedro olhou pra mim e para a coberta. Só dava pra ver o pé. Não sabíamos se era mulher, homem, criança, idoso. Abaixei um pouco, já pedindo desculpa por invadir o espaço daquela pessoa. Uma cabeça levantou e disse “oi”. Pedro gritou, sorrindo satisfeito ! As esfirras estavam em seu colo. Eu disse a ele que meu filho queria saber se o senhor estava bem. O senhor olhou pra ele e deu um sorriso tão doce ! Pedro riu e olhou para o colo. Entreguei com carinho e contei que fomos tomar sorvete e que agora iríamos à fisioterapia. Ele disse obrigado para o Pedro e pegou na sua mão.

– Como o senhor se chama ?

– Eu me chamo Renato !

Disse: “fica com Deus”. Abri o porta-malas. O carro estava em frente de onde ele estava deitado.

Pedro deu outro pulo ! Olhou para a caixa ! Era o livro ‘Pedroca, o Menino que sabia voar !’ Pedro vibrou ! Olhou para o livro e olhou pro senhor Renato ! Eu disse: “você quer dar um livro pra ele ?”

Ele gritava e abria a boca com um sorriso encantador.

Peguei o livro, coloquei na mão do Pedro. Sua mão virou ponte. O senhor Renato pegou o livro e chorou sorrindo !

Eu, que sou feita mais de água nos olhos do que no corpo, não contive a emoção.

Me deu vontade de dar um abraço tão forte naquele senhor. Pois nesse mesmo dia, fazia 24 anos que meu pai tinha ido morar no céu.

O senhor Renato, esqueceu de suas esfirras quentinhas, pois suas mãos folheavam o livro como uma criança que ganha um presente. Seus olhos brilhavam como um leitor recém nascido ! Parido ali ! Na rua mesmo, na calçada ! Minha alma ficou alimentada de amor. Eu ganhei tanto nesse momento ! Deus muda de aparência a cada segundo e o Pedro sapeca, sabe como ninguém, reconhecer cada um dos seus disfarces !