Projeto Desvendando Novos Olhares promove inclusão social e lazer para deficientes visuais

André Amorim/JC

Lazer e Participação Social Junto à Pessoa com Deficiência Visual: Desvendando Novos Olhares é uma idealização da professora Regina Carretta, docente do curso de Terapia Ocupacional da USP de Ribeirão Preto, interior de SP, e tem a premissa de promover a inclusão social e lazer para deficientes visuais.

Além da professora, o grupo conta com a participação de quatro voluntárias e uma bolsista, todas alunas de Terapia Ocupacional da USP de Ribeirão Preto. Elas trabalham em parceria com o Lar dos Cegos da região, uma ONG que abriga esse público, e com a Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp), que funciona como escola voltada para a educação e promoção da independência para pessoas com cegueira ou baixa visão.

Apesar de a pandemia ter alterado o modelo no qual o grupo trabalhava, não foi a primeira vez que elas realizaram mudanças. O projeto da professora Regina surgiu em 2013, com o propósito de atuar com pessoas com as mais variadas deficiências, mas, em 2015, houve o direcionamento para o público com deficiência visual quando surgiu a parceria com o Lar dos Cegos. Até o período pré-covid, as participantes trabalhavam com ações de passeios na cidade, além de práticas de jogos, música e artesanato.

Com a pandemia, o contato presencial foi afetado, uma vez que a instituição tinha muitas pessoas, incluindo algumas idosas ou com comorbidades. A forma que as integrantes do grupo encontraram para continuar o contato com o público alvo foi por meio do celular, seja através de ligações ou áudios em plataformas como o Whatsapp.

Regina explica que as integrantes, inclusive ela,  precisaram fazer um trabalho de preparação para entender a melhor forma de abordagem à distância. A proposta delas nesse novo formato era proporcionar um momento de conversa e de auxílio sobre quais dificuldades os deficientes visuais encontram para ter momentos de lazer na quarentena. Também foi feito um trabalho de reforço aos cuidados necessários para a prevenção contra a covid-19.

Para Giovanna Camargo, voluntária do grupo, mesmo com a distância física, foi possível criar uma proximidade afetuosa entre as duas partes. “A gente vem conseguindo desenvolver certa conexão com alguns deles, com quem está disposto, com quem usa o celular. Parece que a relação está muito mais horizontal, está muito mais afetuosa, mas sem o contato e o toque”, conta.

Camilla Dias, bolsista do projeto, aponta que há uma cobrança por parte das pessoas que elas auxiliam para que as ligações telefônicas sejam feitas. Trata-se de uma ação que traz um momento proveitoso na semana deles.

A bolsista relata algumas das dificuldades com os meios digitais que presenciou, principalmente envolvendo a utilização da internet, uma das principais fontes de lazer quando se está confinado. Ela lembra de um caso em que teve que apoiar na procura de um audiobook (livro em formato de áudio) para que o morador do Lar dos Cegos tivesse acesso a esse tipo de conteúdo. Além disso, também relata quando apoiou um deles na procura de melhores preços na internet para a compra de determinado produto.

Ela ainda destaca que havia ligações telefônicas em que as pessoas desabafavam sobre seus problemas cotidianos, como a frustração de não poder sair do Lar para um passeio. Porém, as integrantes também pontuam que havia pessoas que participavam das atividades antes da pandemia e que acabaram se distanciando, seja pela falta de um celular ou pela dificuldade de usá-lo.

Outro caso que o grupo relatou foi o do Eugênio, participante convidado para uma palestra do Desvendando Novos Olhares. Ele teve dificuldades para acessar o Google Meets, plataforma virtual de reuniões. Contudo, com um treino prévio auxiliado pelas integrantes, Eugênio conseguiu participar do encontro.

Uso da internet e principais leitores de tela

Mais uma questão que Camilla Dias apontou foi o uso das redes sociais, a exemplo do Instagram. Na plataforma, uma das mais usadas no Brasil, o próprio criador do conteúdo deve disponibilizar a descrição do que aparece na tela para que seja acessível para deficientes visuais. A estudante comenta que pouca gente conhece esse recurso, ou até não sabe como descrever uma imagem de maneira correta e acessível. O passo a passo para a descrição de um conteúdo no Instagram pode ser encontrado neste link – https://www.netface.com.br/blog/21/instagram-lanca-recurso-de-legenda-com-descricao-de-imagens-para-cegos#:~:text=Para%20incluir%20uma%20legenda%20espec%C3%ADfica,se%20clicar%20em%20%22editar%22.

Há diferentes recursos tecnológicos que permitem que deficientes visuais tenham acesso aos conteúdos disponibilizados de forma on-line. Camila Baston, pedagoga do setor de Visão Subnormal do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto, explica que existem os sintetizadores de voz e os ampliadores de tela, sendo os primeiros voltados para pessoas com cegueira ou baixa visão profunda e os últimos para grupos que ainda têm uma visão residual capaz de enxergar a tela.

A especialista destaca que os sintetizadores de voz funcionam por meio de comandos no teclado, em que o usuário precisa estudá-los para se familiarizar com as plataformas. Não é necessário o uso de mouse, somente do teclado.

Ela recomenda dois sintetizadores, que são muito usados e encontrados de forma gratuita na internet. São eles o DOS VOX e o NVDA. Camila pontua que é necessário muito treino para que haja a memorização dos comandos de teclado nas plataformas e dá a dica do uso do DOS VOX inicialmente, pois ele conta com treinos e jogos para iniciantes.

Nos últimos anos, aplicativos de celular que sintetizam a voz vêm ganhando popularidade. A pedagoga conta que eles têm uma usabilidade mais fácil e que alguns pacientes do HC vêm preferindo o uso deles ao invés dos programas de computação. Um dos mais famosos é o Voice.

Já em relação aos ampliadores de tela, alguns dos mais utilizados, também gratuitos, são o do próprio Windows, o Zoomit e o ZZoom. Para celular, um dos apps mais famosos é o Big Fonte.

Gisele Lozano tem 19 anos e utiliza ampliadores de tela, pois possui visão reduzida. “Assim que nasci, tive neoplasia maligna no olho direito e foi necessário a enucleação do globo ocular direito e vasectomia com implante de LIO, lente que substitui o sistema cristalino opaco”. Aos nove anos, fez uma cirurgia que a permitiu enxergar melhor.

Ela explica que normalmente não tem dificuldades para usar a internet, com exceção de quando precisa aumentar a letra ou a imagem de um site para ver melhor. “Isso acaba sendo complicado principalmente em relação às imagens, pois, para conseguir aumentá-las, tenho que abrir em uma nova guia”, pontua. Também acredita que alguns sites facilitam muito o acesso ao disponibilizarem seus conteúdos através de áudios.

Gisele passou, neste ano, no curso de Educação Física e Esportes da USP de Ribeirão Preto. Como está estudando no modelo de ensino remoto, ela ainda não teve a oportunidade de presenciar o dia a dia no campus. Mesmo assim, está gostando muito da experiência e não teve dificuldades de acesso às aulas.

Papel da universidade como conscientizadora

Em 2021, o projeto da professora Regina Carretta decidiu ampliar mais uma vez seu formato de atuação. As integrantes estão realizando encontros virtuais mensais com o intuito de trazer algum deficiente visual para conversar sobre temáticas que os afetam. As conversas são abertas para todos os interessados e podem ser acompanhadas no Instagram do grupo.

O nome Novos Olhares USP foi o escolhido para essa nova atividade, que teve como primeiro palestrante o, já citado, Eugênio.

A professora Regina Carretta explica que esses encontros servem para que as pessoas que fazem parte da universidade conheçam mais sobre o tema, expandindo os conteúdos para além do curso de Terapia Ocupacional. Ela também acredita que podem servir como uma maneira de mostrar para um deficiente visual que ele também pode ocupar a universidade, representatividade que é muito pequena atualmente.

Regina destaca que ainda existem dificuldades de acessibilidade para a circulação nos campi e até na própria forma como os professores ministram as aulas, com muitos recursos visuais. A USP não tem cotas reservadas para pessoas com qualquer tipo de deficiência.

 

Ana Loiza, voluntária do Novos Olhares USP, diz que espera que o grupo possa trazer uma reflexão sobre as dificuldades vividas pelos deficientes visuais. “Espero, e muito, que o nosso projeto consiga trazer essa reflexão e que haja mudanças para realmente incluir essa população e que, quanto mais a gente mudar, mais a gente adequar, mais a gente vai trazer um maior número de pessoas dessa população [para a universidade]. E assim, vai ser realmente acessível a todos”, finaliza.

Fonte: http://www.jornaldocampus.usp.br

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