Projeto paulistano equipou 54 ‘Bibliotecas Vivas’ com a tecnologia israelense Orcam MyEye

Está garantido, pela Constituição Brasileira, o acesso de todos os cidadãos à educação, à cultura, ao lazer e ao esporte. A realidade do País, nesse sentido, está longe de ser a ideal, principalmente em se tratando de pessoas com deficiência. Pesquisa realizada pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontou que pelo menos 46 milhões de pessoas no Brasil possuem algum tipo de deficiência, entre elas estão, aproximadamente 1 % da população nacional que é cega. Além deles, há mais de 6 milhões de pessoas com baixa visão.

Diante dessa realidade, percebe-se que o País caminha timidamente – no que se refere à promoção de acesso à educação, à cultura e também à mobilidade – para atender esse público específico, pois ainda faltam investimentos representativos.

No entanto, projetos inovadores e criativos de inclusão como o “Biblioteca Viva”, da Secretaria Municipal de Cultura, implantado pela Prefeitura da cidade de São Paulo/S`P, chega para devolver à população o gosto pela leitura e, também, tem como propósito promover acesso às pessoas cegas, com baixa visão, dislexia, déficit de leitura ou TDAH a todo o acervo impresso, atualmente composto por mais de 3 milhões de títulos.

O projeto já equipou as 54 bibliotecas públicas municipais com dispositivos de inteligência e visão artificial, OrCam MyEye 2.0, que podem ser utilizados gratuitamente.

A tecnologia vestível mais avançada do mundo é israelense e chegou ao Brasil recentemente. Trata-se de uma câmera inteligente intuitiva – do tamanho de um dedo, pesando apenas 22,5g – acoplada à armação de óculos, que tem, entre tantas funcionalidades, ler todo tipo de texto disponível de forma prática, fácil e instantânea em qualquer superfície, de perto ou de longe, de forma off line, ou seja, sem necessidade de conexão à internet e a reproduz em áudio discretamente no ouvido do usuário.

Em entrevista à Revista Reação, a coordenadora geral das Bibliotecas do Município de São Paulo, Raquel da Silva Oliveira, conta como o equipamento OrCam MyEye agregou valor ao Projeto “Biblioteca Viva”.

Revista Reação: Como as bibliotecas da cidade de São Paulo estão ajudando no processo de inclusão das pessoas com deficiência visual ?

Raquel da Silva Oliveira: Todas as 54 bibliotecas do município estão acessíveis às pessoas cegas ou com baixa visão. É a possibilidade de leitura dos mais de 3 milhões de livros para qualquer pessoa, independente de restrições físicas ou sociais. No último levantamento que realizamos com todas as bibliotecas (SMC/SME) e Serviços de Extensão em Leitura, vinculados ao Sistema Municipal de Bibliotecas, chegamos a quantidade total de acervo de 3.361.438 de exemplares. Os dados são referentes a dezembro de 2018.

RR: Com a chegada dos dispositivos aos espaços, percebeu-se um aumento da frequência de pessoas com deficiência visual ?

RSO: Fazemos dois censos anuais, um em abril e outro em setembro. O projeto inclui outras frentes além do dispositivo; mas posso afirmar que ele é agregador e a frequência de pessoas que se dizem cegas ou com baixa visão praticamente dobrou. Estamos recuperando o público leitor e isso é motivo de muita alegria. No que se refere ao uso dos óculos (dispositivo OrCam MyEye acoplado a óculos), devido à recente aquisição dos equipamentos, ainda não há respostas que subsidiem uma avaliação definitiva, mas sim uma avaliação que ainda está em construção.  Nesse sentido, o processo de inclusão das pessoas com deficiência nas bibliotecas, assim como em outros equipamentos, deve ser trabalhado de forma gradativa e contínua nesses primeiros anos de aquisição dos dispositivos.

RR: Como a promoção do acesso à leitura para todos, independentemente de sua condição, favorece a educação dos brasileiros ?

RSO: A biblioteca e a leitura são essenciais para a formação de cidadãos críticos e autônomos na sociedade. A Coordenação do Sistema Municipal de Bibliotecas, ao longo das últimas décadas, baseada nas políticas públicas estabelecidas na administração pública a partir de planos como o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) e o Programa de Metas, tem trabalhado com as questões de acessibilidade em suas bibliotecas públicas com o objetivo de atender e incluir o maior número de pessoas em seus espaços.

RR: Como podemos assegurar os direitos à cultura e educação a todos, já que são garantidos pela Constituição ?

RSO: A partir do planejamento e execução de políticas públicas sérias e inclusivas que garantam a acessibilidade e a evolução da sociedade.

RR: Qual a reação de um frequentador que usa o dispositivo OrCam pela primeira vez ?

RSO: Geralmente fica encantado e emocionado. O uso tem sido realizado por pessoas com baixa visão ou cegas de diferentes faixas etárias. Elas normalmente relatam a facilidade do uso, a leveza e a sensação de autonomia, principalmente ao permitir a identificação de pessoas e cédulas de dinheiro. O estímulo e a curiosidade são evidentes.

RR: Existe algum frequentador que passou a ir com mais frequência à biblioteca por causa do aparelho ?

RSO: Na Biblioteca Affonso Taunay, um adolescente de mais ou menos 12 anos, com deficiência visual, passou a frequentar o espaço diariamente. Ele costuma passar na biblioteca para utilizar o equipamento uma hora antes do início da aula todos os dias ! O adolescente estuda em uma escola próxima à biblioteca.  Muito também se ouve falar do dispositivo na imprensa em geral e isso desperta a curiosidade das pessoas que vão lá para conhecê-lo.

RR: O dispositivo provocou algum tipo de mudança no clima das bibliotecas, tornando-as mais movimentadas e animadas ?

RSO: A circulação de um número maior de pessoas causa uma certa agitação positiva ao ambiente. Porém percebe-se uma empatia entre os frequentadores, que respeitam uns aos outros, já que para uma boa leitura é necessário silêncio e concentração. O equipamento agrega valor inestimável ao nosso projeto de inclusão.