Realidade da comunicação da Pessoa com Deficiência

* Por Hegle Machado Zalewska

Se uma pessoa cega diz que leu um livro, o que lhe vem à mente? O Braille? Sim, a pessoa pode ter se utilizado do processo de escrita e leitura baseado nas combinações de pontos em relevo que representam as letras do alfabeto e sinais de pontuação, mas como esquecer que estamos na era digital? Para quem não sabe, cego utiliza smartphone com tecla “touch”, e por meio da comunicação via internet consegue até conversar com um surdo remotamente

Independência das pessoas sem coordenação fina na comunicação

Gleisinho, formado em ciências da computação pela Universidade de Itaúna/MG, possui paralisia cerebral, tendo comprometimento da fala, da coordenação motora fina e do equilíbrio do corpo. Isso não foi impedimento para que ele criasse um teclado iconográfico combinatório, que pode ser utilizado por quem não possui coordenação fina ou não tem mãos. São utilizados ícones com figuras, e por meio desse teclado (que também funciona como mouse) o usuário pode realizar tarefas como digitação, acesso à internet e acesso a outros programas, da mesma forma que um teclado comum. Além do mais pode ser ligado à saída USB de qualquer computador.
O teclado TIX, produzido pela TIX Tecnologia Assistiva LTDA, atende pessoas com muitas outras deficiências, como é o caso pessoas com síndrome de Down, tetraplegia, paralisia cerebral, até mesmo autistas. (https://youtu.be/PcQWZj6_i1w)

Conversa de ouvintes com surdos através de ligação telefônica

As Centrais de Interpretação em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) são parte da política desenvolvida pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. São parcerias com Estados e Municípios, que promovem auxílio no atendimento das pessoas com deficiência auditiva nos serviços públicos, médicos, jurídicos e policiais com intérprete de LIBRAS e traslado (no caso de comparecimento pessoal do tradutor/intérprete no local do atendimento).
A prestação de serviços das CILs (as Centrais de Intepretação em LIBRAS) não é padronizada, ou seja, o Governo do Distrito Federal, Governo de Alagoas, Governo de Sergipe, Municípios de Manaus, Goiânia e diversos outros Municípios e Estados da Federação que implantaram uma CIL oferecem tipos de serviços diferentes entre si pois há certa autonomia na organização de cada Central.
No Município de São Paulo, a Central de Intermediação em LIBRAS realiza a mediação na comunicação dos surdos com ouvintes no atendimento em qualquer serviço público instalado na Cidade de São Paulo. O serviço é coordenado pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, é gratuito e disponível para atendimento durante 24 horas por dia nos 7 dias da semana. (https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/pessoa_com_deficiencia/central_de_libras/index.php?p=203752)
Testamos o serviço on-line, no qual a pessoa surda realizou download do aplicativo “CIL – SMPED” e acionou a CIL via smartphone. Em poucos minutos a Central entrou em contato com o ouvinte via ligação telefônica, fornecendo um tradutor/intérprete de LIBRAS que se comunicava com o surdo via vídeo.
Desde 2019 usuários surdos da CIL do Município de São Paulo não mais necessitam utilizar seus pacotes de dados para o uso do aplicativo, uma medida junto aos usuários mais carentes tendo em vista que a utilização desse recurso via celular consome, em média, 100Mb por videochamada.
Servidores públicos municipais também podem baixar o aplicativo em seus smartphones para usá-lo quando tiverem que atender um munícipe que só se comunique em LIBRAS. Infelizmente os servidores não estão familiarizados com o serviço, o que faz com que o acionamento deste ocorra quase sempre por parte da pessoa surda.
Outra questão problemática é a utilização para atendimentos bancários. Muitos bancos não aceitam esse tipo de comunicação por tradução/interpretação por entenderem que pode haver alguma fraude.

WhatsApp – revolução para a Pessoa com Deficiência

Com a internet, mais especificamente as redes sociais, a troca de informações se tornou algo fácil e extremamente veloz.
Segundo o site MOBILE TIME, em parceria com a OPINION BOX, o WhatsApp é o aplicativo mais utilizado por brasileiros.
O entrevistado Cleverton Luís de Barros, graduado em Ciências da Computação, Customer Experience (relacionamento entre a rádio curitibana Mundo Livre FM e ouvintes por diversos canais), que é cego, fala sobre sua experiência com o aplicativo: “o WhatsApp facilitou muito a comunicação entre as pessoas, mas teve um grau ainda maior para as Pessoas com Deficiência. Eu consigo usar no meu celular, smartwatch, tablet e computador. Lembro quando era comum o envio de mensagens somente via SMS, muitos amigos com deficiência tinham dificuldade para digitar a mensagem, manter uma conversa era quase impossível, outros tinham dificuldade para mandar materiais por e-mail ou em outras plataformas, no Whats com alguns toques conseguimos fazer isso facilmente”.
Ele explica que a maioria dos leitores de tela fazem uma boa leitura dentro do WhatsApp, até reconhecendo a maioria dos emojis e figuras, se é que já não reconhecem todos.
Aplicativos e a opção de alternância do teclado para uso no WhatsApp possibilitam a conversão de áudio em texto. Quem diria que hoje seria possível um surdo se comunicar com um cego remotamente e ainda com a dispensa de intérprete ? Isso é o que as conversões de texto em áudio e áudio em texto possibilitam.
Cleverton completa que o WhatsApp tem um papel importante na questão educacional pois é um meio simples para disseminação de conteúdo e material de estudos.
Harry Adams, graduado em Letras LIBRAS pela UFSC, educador no Museu da Inclusão (unidade museológica vinculada à Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo), ator da série Crisálida (Netflix), que é surdo, esclarece que: “os surdos no passado tinham que depender das pessoas ouvintes (pais, tios, avós) para fazer ligação, falar com o banco, etc. Hoje já está tudo bem facilitado, os surdos podem conversar (inclusive com outros surdos que se utilizem apenas das LIBRAS), agendar consultas médicas, pedir pizza, tudo através do WhatsApp”.
Gleisinho, criador do teclado TIX, nos conta que com a paralisia cerebral a dificuldade para falar é grande, então hoje só conversa através da digitação no WhatsApp.
Atualmente o aplicativo é meio de comunicação para atendimento em Delegacias de Polícia, como é o caso da Polícia Civil e Militar de Santa Catarina, Polícia Civil do Rio Grande do Sul, e Centro Integrado de Operações de Segurança Pública do Rio Grande do Norte.
No que diz respeito à Pessoa com Deficiência, a utilização do Disque 100 (denúncias de violações aos Direitos Humanos) via WhastApp é uma novidade que facilita a comunicação, especialmente para a Pessoa com Deficiência que possui dificuldade de se utilizar de outros meios de comunicação, além do mais, o recurso que permite anexar vídeos, imagens e áudios facilita a investigação. Para oferecer uma denúncia, esclarecer dúvidas e registrar reclamações basta entrar em contato com o número de WhatsApp: (61) 99656-5008.
É a tecnologia fazendo a diferença especialmente na vida da Pessoa com Deficiência.

Dique 100

 

* Hegle Machado Zalewska é Advocacy; Comunicadora; Desenvolvedora de Projetos; Produtora de Conteúdo de Políticas Públicas; Advogada Especializada em Direito Digital. 

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