Ricardo Hummel O fundador da Ortobras foi responsável por um importante capítulo na história brasileira da indústria de produtos para pessoas com deficiência

Durante este ano estamos publicando como uma forma de homenagem, entrevistas especiais com os nomes e empresas que marcam a história das Cadeiras de Rodas e demais equipamentos para a pessoa com deficiência no Brasil.

Nesta edição, Ricardo Hummel, diretor proprietário da Ortobras é o nosso entrevistado. No mercado de tecnologia assistiva há 37 anos, ele nasceu na Argentina, onde casou e teve o filho Jonathan – hoje engenheiro responsável da empresa. Já no Brasil, nasceu  Jennifer que é veterinária, com especialização em fisioterapia.

            Hummel cursou Engenharia Mecânica na Argentina e fez especialização em solda, especificamente em ligas de aço e alumínio.

Seu envolvimento com a pessoa com deficiência começou ainda na Argentina com a empresa Hummel S.A., que era especializada na fabricação de Galpões Industriais, pontes rolantes e maquinas para o agronegócio. Em 1979 o pai de Ricardo  decidiu estabelecer uma filial no Brasil e deixaram Buenos Aires para assumir a empresa no município de Barão, no Rio Grande do Sul, região da Serra Gaúcha. Ele conta que o pai – alemão – e a mãe polonesa, escolheram a pequena cidade gaúcha para estabelecer a empresa por ela lembrar muito Schwartzwald, onde cresceram.

Chegando no Brasil com a empresa, logo perceberam que existia aqui outro mercado para ser explorado na época: o de adaptações manuais para dirigir automóveis. Na Argentina, o irmão de Ricardo, Ernesto Hummel, foi trabalhar na Volkswagen como diretor de marketing para veículos adaptados. Era o ano de 1982 e por lá usavam para isso o modelo Passat, brasileiro, com comandos manuais vindos da Alemanha. Isso foi o que despertou a família Hummel, até então com a empresa voltada para fabricação de implementos para o agronegócio, a despertar para o grande universo da pessoa com deficiência, na Argentina e no Brasil.

            Ricardo conta que na época, tudo era muito improvisado, feito por pessoas de boa vontade, mas não existia uma indústria nacional de alto padrão que tivesse interesse em investir neste setor, já que o mercado de pessoas com deficiência praticamente ainda não existia no Brasil. Nas adaptações para dirigir a exceção era São Paulo/SP, que já contava com alguns equipamentos, mas no sul do País não havia nada. Nas cadeiras de rodas, não se tinha qualidade e tecnologia. Por isso, ele conta que, desde 1982, quando entrou neste mercado, sua dedicação foi total.

Muita coisa mudou nestes 37 anos e podemos afirmar que Ricardo Hummel faz parte dessa transformação. E ele se orgulha muito disso e ressalta que deve o seu sucesso à família, especialmente a esposa Adriana, que aceitou o sacrifício necessário para acompanha-lo em todos estes desafios. Vamos a partir de agora saber um pouco mais da história da Ortobras contada com exclusividade à Revista Reação por seu fundador:

Revista Reação – É verdade que a ORTOBRAS começou em uma Feira Agropecuária e de Animais no Rio Grande do Sul ?

Ricardo Hummel – Sim é verdade ! Em 1982 tínhamos um estande bem grande dentro do Pavilhão alemão na Expointer, na cidade de Esteio/RS. Estávamos expondo plantadeiras para soja de nossa fabrica da Argentina e decidimos aproveitar para colocar os primeiros carros adaptados em exposição. Conseguimos dois carros da Volkswagen:  um Fusca e um Voyage (lançamento daquele ano) e assim começamos.

LEGENDA – Fusca adaptado exposto na Expointer em 1982

RR – Qual foi o primeiro lançamento da Ortobras ? Pode dar mais detalhes do primeiro produto ?

RH – Iniciamos as atividades com “Comandos manuais para dirigir automóveis”. Nas cadeiras de rodas nosso primeiro lançamento foi a “Gazela”.

RR – Quando efetivamente teve início as atividades com a produção de cadeira de rodas pela Ortobras no Brasil ?

RH – No Rio de Janeiro/RJ, em 1985. No inicio eram apenas 20 cadeiras por mês. Hoje temos uma linha diversificada com modelos que vão, da cadeira de banho até a Ipanema, uma cadeira específica para praia, cadeiras manuais e motorizadas de aço e alumínio, guincho de transferência etc. Temos hoje uma produção diária de mais de 350 cadeiras. Morando na ocasião no Rio de Janeiro, conheci pessoas fantásticas que me apoiaram e me ensinaram muito. Não vou mencionar ninguém especificamente, mas a todos que me conhecem, meu mais sincero agradecimento. Quando conheci o pessoal de basquete e vi as cadeiras tipo monobloco que usavam, entendi que este era o momento de aprender mais sobre postura e utilizar meus conhecimentos em solda, do meu pai em mecânica de precisão e da minha mãe em costura. Foi ai que nasceu a “GAZELA”, primeira cadeira em aço monobloco e colorida do Brasil. Em 1986 iniciamos a fabricação de cadeiras em alumínio aeronáutico e as de basquete e atletismo. Nesse ano acompanhei a delegação para os Jogos Parapanamericanos em Porto Rico. Novamente,  em 1988 na Venezuela, e depois, em 1990 no México.

RR – Conte um pouco mais sobre o produto Top Car, tão famoso na época. Como foi  isso ? 

RH –    Em 1984 inventei o Top Car, um bagageiro automático para guardar a cadeira de rodas sobre o teto do carro. Este equipamento nasceu da solicitação de clientes cadeirantes que podiam dirigir, mas não podiam tirar a cadeira do porta-malas sem ajuda de terceiros. Um me relatou que ficou horas no estacionamento da universidade esperando uma ajuda e outro que roubaram a cadeira e o estepe quando abriram o porta-malas para guardar a cadeira !

LEGENDA – Expondo o Top Car em 1984, com seu pai tomando Chimarrão.

RR – Qual é a participação – ao longo da história – da Ortobras no mercado do transporte, edificações e de aviação no Brasil ?  Conte-nos sobre essas variações e inovações dentro da linha de produtos da empresa.

RH – O ano de 1987 foi marcante e especial. Por solicitação da Secretaria de Transportes do Rio de Janeiro/RJ, inventei e iniciamos a fabricação das primeiras plataformas elevatórias de cadeiras de rodas para ônibus urbanos. Em parceria com a Marcopolo, empresa que fica aqui no RS, foram instalados os primeiros 14 ônibus adaptados. Hoje 100 % dos ônibus saem da linha de montagem das fábricas acessíveis, na época não. Nesta linha temos as plataformas para Vans, para ônibus e o sistema de elevação de teto. Uma coisa leva a outra e em 1990 firmamos uma parceria com uma empresa canadense – Federal Elevator – que é especializada em elevadores residenciais e de acessibilidade. Hoje atendemos toda a linha de acessibilidade e de uso público e hospitais. E por último, em 2012, inventei o Mamuth, que é uma ponte de embarque com elevador e escada para acesso a aeronaves. Com o Mamuth ingressamos no mercado aeroportuário, altamente exigente em qualidade e tecnologia de ponta.

RR – Qual a estrutura da Ortobras hoje e todos os seus campos de atuação ?

RH – Nossa sede é no município de Barão/RS. Fica a 120 Km de Porto Alegre/RS, na Serra Gaúcha. Temos no município 3 unidades de produção, totalizando 35.000 m² de área construída. Contamos com 350 colaboradores diretos e aproximadamente outros 250 indiretos.

RR – Qual a experiência da parceria firmada com empresas canadenses ??

RH – Sempre que você firma uma parceria que inclua não apenas a compra de produtos, mas principalmente a transferência de tecnologia com uma empresa de um país desenvolvido você cresce. Foi assim com a linha de elevadores prediais. Hoje exportamos estes elevadores para vários países, inclusive o Canadá.

RR – Qual o significado do Grupo Ortobras hoje, para o mercado brasileiro e mundial ?

RH – Nós somos a única empresa do mundo que desenvolve e comercializa equipamentos para mobilidade e postura, acessibilidade predial e veicular, e para aeronaves. Nosso principal mercado é o Brasil, mas temos forte atuação na America  Latina, e já exportamos para vários países em outros continentes.

RR – Qual o momento mais delicado que o Ortobras enfrentou em toda a sua história ?

RH – Sem nenhuma dúvida foi em 2015. Tínhamos acabado de fazer investimentos muito pesados para atender o mercado aeroportuário e com a crise do nosso País houve uma desaceleração muito acentuada nestas vendas. Isto nos obrigou a reestruturar a empresa e profissionalizar a gestão. Mas isso acabou sendo muito positivo e hoje somos uma empresa preparada para os novos desafios que a globalização impõe. Mas devo esclarecer que foi difícil nas duas últimas crises que o Brasil passou: a de 2008 e 2015, mas a Ortobras manteve sua carteira de clientes e inclusive cresceu com taxas muito altas.

RR – Qual sua opinião sobre o sistema de compra do SUS e do governo no Brasil ?

RH – O sistema de atendimento pelo SUS é ambicioso e está bem organizado. Hoje os gestores são mais controlados pela sociedade e pela transparência que a internet oferece. A tabela do SUS nas cadeiras de rodas está completamente defasada e o grande atrativo é o volume de produção que gera. E a única maneira de atender a demanda reprimida e poder remunerar de maneira justa os fornecedores é melhorando os controles e a gestão do Governo, em todas as esferas.

RR – Atualmente quais as maiores dificuldades enfrentadas por uma indústria de cadeiras de rodas no Brasil ?

RH – São as mesmas que existem em qualquer economia globalizada. Investir constantemente em tecnologia, sistemas de qualidade e fazer com que todos os colaboradores da organização não apenas “vistam a camiseta”, mas que participem das decisões e tenham orgulho de cada produto produzido, pois sabem que em algum lugar alguém vai poder ter uma vida um pouco mais digna graças ao seu trabalho. Nossos clientes têm hoje todas as ferramentas da internet para comparar e avaliar a qualidade de uma marca. E uma marca forte e robusta como a Ortobras só foi conquistada com muito respeito aos nossos clientes.

RR – Como avalia a economia e o futuro do Brasil neste segmento de tecnologia assistiva ?

RH – O Brasil é um país fantástico ! E vai superar esta crise rapidamente se as pessoas se unirem pelo bem comum.

RR – Quais os planos da Ortobras para o futuro e seus lançamentos ?

RH –  Ortobras atua hoje em 4 linhas de produto: cadeiras de rodas – estamos sempre inovando, vêm novidades nesta linha. Plataformas veiculares – estamos investindo para atender toda a linha de rodoviários e Vans. É um mercado muito grande e atuamos em todo Brasil e América Latina. Elevadores prediais – neste segmento a principal evolução é tecnológica, pois os elevadores são cada vez mais “inteligentes” e a Ortobras acompanha esta tendência, com soluções que permitem economizar energia. Aeroportos – neste segmento temos o Mamuth e outras soluções de acessibilidade nas quais estamos trabalhando.

 

RH – Nestes 37 anos que eu acompanho este setor, evidenciei mudanças enormes na qualidade e diversidade, não apenas das cadeiras de rodas, mas com tudo que tem a ver com acessibilidade. Hoje a qualidade dos nossos produtos não deve nada aos melhores equipamentos similares importados.

RR – O que falta para o Brasil melhorar ?

RH – Em curto prazo: um pacto da sociedade e do poder público para unir esforços para melhorar o ambiente no qual vivemos, melhorando a relação entre as pessoas e com o meio ambiente. Em médio prazo: investimento prioritário no ensino fundamental e médio, iniciando já nas creches, preparando as pessoas para o mercado de trabalho moderno, de acordo com as novas tecnologias atuais e futuras. Em longo prazo: com universidades privadas de altíssima qualidade e públicas gratuitas que formem os melhores mestres e doutores em todas as áreas.