Saindo do armário atípico: Como é ser autista?

* Por Rodrigo Piris

Após ser diagnosticado dentro do TEA (Transtorno do Espectro Autista) com Síndrome de Asperger, mesmo com uma necessidade mínima de apoio, graças à minha evolução senti-me empoderado. Quem me conhece pessoalmente sabe que sou um tanto desajeitado, diferente e de personalidade forte, mas que superação é meu sobrenome.

Não que me veja como inferior a ponto de querer superar alguma limitação definida por uma característica mental, mas porque viver é um fardo para todos que amam a vida e a riqueza de experiências que ela pode proporcionar dado ao fato de que todos temos nossas limitações, mesmo que em diferentes contextos e situações.

Para mim seria confortável e até agradável ficar em meu quarto isolado, lendo e escrevendo livros. Porém, se penso logo existo, como dizia René Descartes, preciso que minha existência tenha significado maior do que a teoria. Minhas ideias precisam ser trazidas à luz para que se tornem realidade, como conjecturava o grande filósofo Sócrates, saindo da caverna alegórica de Platão para ver e lidar com a realidade como ela de fato é, sem deixar que a intensidade da luz me afaste da verdade, usando as lentes da razão para observá-la como deve ser.

Depois de muito questionar, observar e aprender, estar no TEA é ver o mundo de maneira diferente que a maioria das pessoas. Segundo uma pesquisa publicada pela JAMA, revista da Associação Médica Norte-americana, crianças com autismo têm 67% mais neurônios no córtex pré-frontal, sendo este 17,6% mais pesado que a média geral. Inclusive mesmo com mais neurônios, eles têm mais conexões com seus pares próximos do que em crianças normais, demandando um esforço cognitivo maior para se fazer até as coisas mais simples, gerando por vezes ruídos e até mesmo ataques epilépticos (que é o caso de quase um terço dos autistas). Eu mesmo só comecei a falar depois dos 3 anos de idade e sofri muito bullying na infância por ser um “estranho e formal”, mesmo nas brincadeiras.

Entretanto, mesmo assim somos únicos em nossa forma de vermos o mundo exatamente pela quantidade de sinapses neurais: tudo é mais intenso, já que acionamos mais neurônios. Se não nos sentirmos incomodados em uma situação, é bem provável que surja um efeito rebote depois, como cansaço mental ou estresse. É como ter um processador com mais núcleos, com um sistema operacional de altíssima performance e inteligência artificial de auto aprendizado inclusa que fica rodando depois de executar tarefas, porém com um cooler limitado. A coisa esquenta e trava! Me lembro quando criança, ao brincar com meus amigos e me pediram para escolher entre “polícia e ladrão”, onde reclamei porque minha cabeça estava doendo, ao pensar nas implicações e desdobramentos morais, éticos e comportamentais de cada opção.

Vou ilustrar. Feche os olhos e imagine você ouvindo sua música predileta. Agora aumente o volume ao máximo. Irritante? Óbvio, já que os ouvidos doem. Entretanto, além dos ouvidos doloridos, para alguns autistas (no meu caso), a quantidade de informações que absorvemos do som, mesmo que em volume normal, possui variações, criando um efeito em cadeia sináptica maior que nas pessoas comuns. Agora imagine um turbilhão de pensamentos e sentimentos invadindo sua mente de forma ininterrupta. Uma bagunça irritante, não acha? Mas nesse caos todo eu me divirto e me canso. Graças a toda essa interação sináptica entre vários neurônios a mais é que identificamos os padrões e as ideias mais inusitadas e relevantes na solução de problemas, colocando tudo em ordem.

Isso envolve tanto maturidade, técnicas e é claro a quantidade de fatores atrelados ao próprio TEA, sendo mais fácil para uns do que para outros controlar suas capacidades cognitivas. No meu caso, é leve e aprendi a usar diversas técnicas para me comunicar bem, mesmo que depois eu fique com a mente esgotada ou agitada, preferindo o isolamento para reiniciar o “sistema operacional” e recarregar as baterias.

Ainda estamos longe de sermos respeitados como somos e compreendidos como diferentes. Infelizmente a sociedade não está pronta para respeitar a diversidade que ela mesmo representa e tão pouco preparada para ver o quanto nos esforçamos para nos relacionar bem com ela com todo nosso potencial. Esse sou eu, um cidadão com TEA, disposto a evoluir e que deseja mais inclusão na sociedade.

* Rodrigo Piris, sócio da Inclue, possui 14 anos de experiência no mercado digital. Recebeu 11 prêmios relacionados à inovação da FIESP, SENAI, SEBRAE, IBM, USP, SENAC, 99jobs, EOS.IO, Olhar Digital, Mackenzie e Museu do Amanhã.

** Este texto é de responsabilidade exclusiva de seu autor, e não expressa, necessariamente,  a opinião do SISTEMA REAÇÃO – Revista e TV Reação.