Sara Bentes Cantora brasileira premiada nos Estados Unidos prepara o lançamento do segundo CD. Talentosa, ela também é atriz, escritora e poetisa

A cantora, escritora e poetisa Sara Bentes enfrentou e venceu muitos desafios ao longo da sua vida. A jovem de 36 anos, nascida em Volta Redonda/RJ, herdou um glaucoma congênito, doença que provocou sua deficiência visual desde a infância. Passou por 17 cirurgias, a maioria na capital paulista. Muito cedo, Sara sentiu o despertar da música: seus pais e todos os seus tios escutam muita música popular brasileira e vários tocam instrumentos, como violão.

            Neste ambiente familiar, Sara cresceu e mesmo com as dificuldades impostas pela cegueira a todos os que possuem a deficiência no Brasil – que eram maiores nos anos 1980 e 1990, época da infância e adolescência da cantora – como é dona de uma bela voz, conseguiu despontar no mundo da música. Em 2003, aos 21 anos, ela venceu o Concurso Internacional Rosemary Kennedy para Jovens Cantores, realizado em Washington/EUA, superando concorrentes de 89 países. A partir daquele momento, a carreira de cantora de Sara teve um impulso: recebeu convites e cantou em apresentações nos Estados Unidos, Argentina, Itália, Suécia, Turquia e Tailândia. Sara canta em português e inglês, mas no Brasil prefere cantar em nossa língua.

            Em 2015 ela lançou o seu primeiro CD – “Invisível” – que está disponível no site da cantora e no Spotfy. Ela se prepara para lançar em breve, logo depois do Carnaval, o seu segundo CD – “Tudo o que me faz vibrar”.  Ela já publicou um livro de poesias, em 2011, e o romance de ficção: “E não se esqueçam de regar os girassóis”. Sara adora a música de Tom Jobim e de muitos músicos brasileiros, mas ela própria compõe as letras e muitas vezes faz a melodia das suas músicas. 

            A artista tem uma frase predileta, tirada da canção “Mais uma vez”, de Renato Russo e Flávio Venturini. A frase é: “Quem acredita sempre alcança”. Vamos conhecer um pouco mais da história desta mulher e artista fantástica:

 

Revista Reação – Como a música entrou na sua vida ?

Sara Bentes – A música entrou na minha vida muito cedo. A minha família é muito envolvida com a música. Os 12 irmãos do meu pai – 10 ainda estão vivos – escutavam muita música e tocavam instrumentos. Quando eu era criança, bem pequena, e tinha que fazer cirurgias nos olhos, nos hospitais em São Paulo, cantava nos corredores. Eu nasci com glaucoma congênita, por isto tive que fazer muitas cirurgias, a primeira alguns dias após o meu nascimento, a última quando eu tinha 17 anos. Eu era uma criança muito agitada e meus pais, geralmente a minha mãe, me traziam a São Paulo/SP para fazer o tratamento do glaucoma e as cirurgias. Nós sempre moramos entre Volta Redonda/RJ e o Rio de Janeiro/RJ.

 

RR – Quando você começou a atuar como cantora profissional ?

SB – Ainda na adolescência, na escola em Volta Redonda/RJ. Comecei a me apresentar aos 14 anos, já recebia uns trocados para cantar. Mas foi após vencer o prêmio Rosemary Kennedy é que a minha carreira teve um começo para valer.

 

RR – O que mudou na sua vida após ganhar o Concurso Internacional Rosemary Kennedy ?

SB – Muitas portas se abriram no exterior e mesmo aqui dentro do Brasil para eu poder cantar, mostrar a minha música. Eu me apresentei na Argentina, na Itália, mais tarde em outros países europeus. Em 2015, estive na Tailândia, onde cantei e conheci uma banda sueca sensacional. Eles têm uma proposta diferente: cantar a música não só como entretenimento, mas também para falar sobre a deficiência visual, a cegueira, da maneira como eles são tratados pelo restante da sociedade – mesmo na Suécia, existem diferenças e problemas. Isso gerou uma empatia enorme entre nós.

 

RR – Como foi este festival na Tailândia ?

SB – Este festival aconteceu em 2015. Fui convidada para ir a Bangkok, mas aconteceu o seguinte: eles informaram que eu não poderia viajar com um acompanhante, eles não poderiam pagar as despesas da viagem. Quando eu fui a Washington, minha mãe me acompanhou. Então eu pensei, se a opção é não ir, eu vou. Fiz contato não só com a embaixada brasileira, hotel, serviços essenciais para alguém com deficiência visual, mas também com músicos de vários outros países que iriam à Tailândia. Entre estes músicos, estava a banda sueca. São 8 músicos e músicas fantásticas, pessoas excelentes. A viagem à Tailândia foi ótima e nos enturmamos muito rápido. Tanto é que, depois, fui duas vezes à Suécia participar de festivais com meus amigos.

 

RR – Voltando a 2003, quando você foi aos EUA e recebeu o prêmio. Você cantou a música “Wave”, do Tom Jobim. A Bossa Nova é uma influência marcante na sua formação musical ?

SB – A Bossa Nova abriu as portas do mundo para a música brasileira. Isto o Tom Jobim e o João Gilberto fizeram no começo da década de 1960. Ainda hoje, a Bossa Nova é muito tocada nos Estados Unidos. Em 2003, cantei “Wave” em Washington, todos os músicos eram americanos e adoraram. Eu gosto muito da nossa MPB, da Bossa Nova, também gosto de música POP, porque é a música mais simples e fala diretamente ao coração das pessoas. A música POP é mais emocional. Mas eu também adoro música argentina, italiana. Tenho uma irmã que mora na Itália há mais de 20 anos, ela sempre me manda as novidades musicais de lá.

 

RR – E como você chegou à poesia ? Ou melhor, foi a poesia que te encontrou ?

SB – A poesia é muito próxima das letras das músicas. A poesia, em certo sentido, te deixa mais livre, porque você não precisa encaixar as palavras na melodia. Em 2011, decidi publicar meu livro de poesias: “Fotografias Poéticas de um Olhar Viajante”. 

 

RR – E suas incursões na literatura ?

SB – O romance eu escrevi entre 2011 e 2012, mas eu só decidi publicar em 2017. Primeiro, porque levei esse tempo todo para juntar o dinheiro e fazer a editoração. É um livro independente, a gráfica é de São Paulo/SP.

 

RR – E quais foram as suas influências literárias ?

SB – Veja bem: eu li todos os clássicos da Literatura Brasileira e crônicas. Mas no meu período escolar eu lia pouco, porque eu tinha pouco acesso aos livros (em linguagem Braille). Naquela época, não existia a Lei da Inclusão. Muitos professores não eram preparados no ensino básico e médio. O que eu lia, no começo, era o quê o meu pai ou o quê minha mãe liam para mim. Finalmente, com o advento e popularização da Internet, a minha leitura passou a ser muito mais intensa de uns 10 anos para cá, quando passei a ter acesso à Amazon, aos livros eletrônicos. Hoje, tudo é mais fácil: você pode baixar os livros da Internet, os clássicos são de domínio público. Os livros eletrônicos facilitaram muito o acesso das pessoas com deficiências visuais.

 

RR – Quais são as maiores dificuldades que uma pessoa com deficiência visual encontra atualmente no Brasil, em sua opinião ?

SB – Elas são muitas, hoje ainda existem muitas dificuldades de acesso no Brasil. Vou te dar um exemplo: praticamente não existem sinais sonoros para os pedestres. Em São Paulo existem poucos, no Rio de Janeiro, apenas um ! As calçadas das ruas são horríveis. Nas cidades do interior, é ainda pior. Existe a questão da falta de educação e da consciência a muitos brasileiros. Um motorista que estaciona o carro em cima de uma calçada está prejudicando também a pessoa com deficiência visual que caminha por ali. Já os governantes brasileiros nos consideram uma minoria improdutiva. O que é falso: muitas pessoas com deficiências visuais trabalham, pagam os seus impostos. Existem pessoas que pensam que somos incapazes e não conseguimos trabalhar. Felizmente, isso começou a mudar.

 

RR – Começou a mudar quando e de que maneira, em seu ponto de vista ?

SB – Começou a mudar há pouco mais de 10 anos, entre a própria população. Eu comecei a viajar sozinha de Volta Redonda/RJ para São Paulo/SP em 2007 para trabalhar. E isto é terrível, mas muitas pessoas percebiam que eu sou cega e me evitavam. Hoje eu continuo a viajar para São Paulo sozinha e percebo que as pessoas estão mais preocupadas. Perguntam se eu preciso de ajuda em uma estação do Metrô, em um terminal de ônibus. São Paulo, aliás, é uma cidade que melhorou muito a questão do acesso para pessoas com deficiência. O Metrô já conta com avisos sonoros em várias linhas e estações. Muitos teatros e cinemas melhoraram o acesso aos grupos com deficiência, com o uso de Libras (para surdos), com a audiodescrição (fones de ouvido) para os cegos.  Há 10 anos, o Brasil não tinha áudiodescrição na televisão. Hoje, acho que 40 % da programação da televisão têm áudiodescrição. Mas para isto, o televisor precisa ter a tecla SAP 2, nem todos têm. Na verdade, eu assisto pouca TV, prefiro ler e escutar música.

 

RR – E quais são os seus planos de futuro ?

SB – Estou preparando o lançamento do meu próximo CD, que vai se chamar: “Tudo o que me faz vibrar”. Ele já está pronto, será lançado após o Carnaval 2018. Vale lembrar que meu romance está disponível na Amazon em e-book (livro eletrônico) e no meu site (www.sarabentes.com.br). Tudo está no meu site em versão digital e por isso, muito acessível. A tecnologia chegou para nos ajudar.

 

RR – Com tantas atividades, qual a frase que você diria que te define ?

SB – A frase… “Quem acredita sempre alcança”. Esta frase é da música “Mais uma vez”, do Renato Russo e do Flávio Venturini.