SELI – Bilíngue em Libras e português

Fotos dos alunos que entraram em faculdades estão em uma das salas que dão acesso às instalações do SELI – instituto e colégio no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista. Todos os alunos do colégio são pessoas com deficiência auditiva e têm um ensino pautado na filosofia bilíngue, considerando a Libras – Língua Brasileira de Sinais – como primeira língua e a Língua Portuguesa na sua modalidade escrita. Os jovens foram alfabetizados em português e aprendem Libras dentro da grade curricular da escola. Muitos começaram ali seus estudos no ensino básico e fizeram até o ensino médio. A entrada em uma faculdade através do ENEM ou do Vestibular é um motivo de orgulho para Sibelle Moannack Traldi, fonoaudióloga, gestora e fundadora do Grupo SELI, que atualmente congrega a escola com ensino elementar e médio e o Curso de Libras, entre outros braços da instituição. O SELI tem como diferencial e pioneirismo ter adotado o Quadro Europeu Comum de Referência em Língua (QECR) para o ensino de Libras, algo pouco comum no ensino desta língua.

Sibelle diz que, em relação ao Colégio Seli: “nós já temos alunos formados aqui que hoje são advogados, historiadores, administradores de empresas, biólogos. Eu digo que preparamos o aluno não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida”. Ela lembra que o SELI percorreu uma longa trajetória até virar uma referência educacional na capital paulista. A fonoaudióloga começou a escola em 2002, em um sobrado no Tatuapé, com “três mães e cinco alunos”. O Curso de Libras – atividade diferente do ensino fundamental e médio – teve início em 2005. “Naquela época, era difícil você encontrar até mesmo professores de Libras em São Paulo”, lembra.

Em 2013, o SELI mudou para a sua sede atual, na Rua Henrique Sertório, perto da Estação Tatuapé do Metrô e dos shoppings Boulevard e Metrô Tatuapé. Em 2016, a instituição modificou sua proposta no Curso de Libras com base no Quadro Europeu Comum de Referência em Língua (QECR).

A gestora do SELI comenta que o ensino de Libras avançou muito no país de 2002 para 2018. Após mais de quinze anos de ensino de Libras, uma primeira geração de alunos com deficiência auditiva completa o ensino médio e, muitas vezes, o ensino superior, entrando no mercado de trabalho. Para o estudante surdo, ter o domínio de duas línguas, Libras e Português em sua modalidade escrita, já no começo da vida acadêmica é um diferencial importante não apenas para uso no mercado de trabalho, mas também para o aprendizado posterior – após aprender a segunda língua, qualquer pessoa tem mais facilidade para aprender a terceira.

“No Brasil, um passo importante foi a Libras ter sido reconhecida em Lei como língua em 2002. A partir disso as universidades tiveram um prazo para se adequar à legislação que obriga os cursos de Licenciatura e Fonoaudiologia terem em sua grade a disciplina de Libras até 2016”, diz Marcos Antonio Galhardo, biólogo, professor e diretor-geral do SELI. Segundo ele, a maioria dos 22 professores do Colégio SELI possui mestrado e até doutorado – os que não possuem, têm especialização Lato Sensu. Outro diferencial, este específico ao Curso de Libras, é que 80 % das aulas práticas são dadas por professores Surdos. “Hoje a Libras tem um reconhecimento e difusão em nosso país atingindo gradativamente status de língua como o inglês, espanhol, francês, italiano. Isto é muito importante, esta cultura chegou ao mundo corporativo”, comenta Galhardo.

O Quadro Europeu Comum de Referência em Língua (QECR) é usado no SELI para o Curso de Libras – este destinado, de uma maneira geral a adultos sem deficiência auditiva, em maior parte professores do ensino público paulista, que precisam obter fluência na língua. O quadro europeu começa pelas etapas mais elementares em qualquer língua (A1, A2), passa pela etapa média (B1, B2), avançada (C1, C2), muito avançada (D1, D2) e de excelência (E1 e E2). No SELI são usadas as etapas A, B e C, com os níveis 1 a 2 em cada.

O material didático do curso de Libras é todo apostilado e os alunos têm o apoio de cerca de 1.000 vídeos que estão disponíveis na plataforma on-line da escola. Além disto, os estudantes têm o Portal do Aluno, que podem acessar até pelo celular. Neste portal eles podem verificar as notas e a frequência às aulas.

“As pessoas se apaixonam pela Libras, assim como se apaixonam pelas outras línguas. Hoje existe a consciência de que é uma língua complexa, com gramática e sintaxe próprias. É uma situação melhor que há dez, quinze anos, quando a Libras parecia para os leigos como uma mímica ou um amontoado de gestos”, diz Sibelle.

 

Perspectiva didática

O SELI tem atualmente 160 alunos no colégio. A maioria dos que estão no ensino médio tem 18 anos – esta faixa etária normalmente acontece devido a um processo histórico educacional, que vêm se modificando. A maioria dos alunos, somando ensino fundamental e médio, têm bolsas de estudo de 50 % – ao contrário do que se imagina ao visitar a escola, os alunos são de famílias de renda baixa e renda média.

Galhardo e Sibelle dizem que por isto, já no ensino médio, a escola tenta inserir os alunos no mercado de trabalho. Não são raros os casos dos alunos que ajudam as famílias a pagar a escola. Os alunos que trabalham em geral têm jornadas de seis horas diárias – muitas vezes no programa jovem aprendiz – de segunda-feira a sexta-feira. Isto permite que o aluno estude e trabalhe no contra turno.

“O nosso projeto de empregabilidade, que já tem alguns anos, foi muito bem aceito por nossos alunos. Nós percebemos que eles amadurecem no processo, alguns ajudam as famílias a pagar a escola. Isto é muito positivo para eles”, explica a gestora.

O SELI possui ações educacionais profissionalizantes com o SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, que sempre avisa a escola quando abre vagas para jovens com deficiência auditiva. Os jovens fazem cursos de Mecânica, Eletricidade, entre outros, e costumam ser encaminhados pelo Senai às empresas que os contratam. “Temos alunos que trabalham na Mercedes-Benz, IBM e outras grandes empresas, além disso, temos parceria com o Instituto Tomie Othake, onde os alunos podem aprender marcenaria”, diz Sibelle.