Sobre ser uma mulher com deficiência e transar

Já na minha primeira experiência sexual eu me senti rejeitada por ser uma mulher com deficiência – e tenho medo que esse trauma se repita. Mas hoje eu consigo lidar melhor com esse sentimento, pois sei que ele é causado pelos preconceitos e estereótipos que a sociedade despeja em nós, mulheres com deficiência. Essa violência do senso comum, muitas vezes, interfere na visão que tenho de mim mesma e na minha autoestima.

É importante perceber que ser mulher e viver numa sociedade patriarcal significa estar diariamente sujeita à violência do machismo. Por consequência, ser uma mulher com deficiência nessa mesma sociedade significa ser violentada em dobro: pelo machismo e pelo capacitismo – que é o preconceito contra pessoas com deficiência. Quando se é mulher, o machismo te diz: ‘Você não pode fazer sexo por prazer e transar com quem e quantos quiser. Seu dever é apenas satisfazer o homem. Quando se é mulher com deficiência, o machismo e o capacitismo te dizem: ‘Você é assexuada. Não é capaz de transar e que dirá ter prazer. Seu corpo não é capaz de saciar a libido de um homem’

A verdade é que nossos corpos não são vistos com naturalidade, como uma possibilidade diante da diversidade humana. Pelo contrário, ao longo da história, nos aprisionaram com alguns estereótipos: a santa intocável, a doente que necessita de cura, a coitada digna de pena ou caridade ou o exemplo de superação. Nunca fomos vistas como mulheres que têm uma condição de vida diversa – a deficiência. E que sentem tesão. Transam, querem gozar e têm diferentes orientações sexuais. O próprio presidente da República não reconhece questões essenciais para que possamos exercer nossos direitos sexuais. Quando ainda era deputado, votou contra uma parte específica da LBI: o inciso VI do 4° parágrafo do artigo 18 (CAPÍTULO III – DO DIREITO À SAÚDE): “respeito à especificidade, à identidade de gênero e à orientação sexual da pessoa com deficiência”. Por todos esses motivos, é urgente a união entre nós, mulheres com deficiência. Juntas podemos mostrar que existimos, reivindicar nosso lugar no feminismo, na sociedade, nos cargos de poder – e também nas baladas, motéis e onde mais decidirmos estar.