Tome cuidado !

* Por Roberto  Rios

As atividades do dia a dia sempre requerem cuidados, seja no trânsito, no trabalho, nos afazeres domésticos e, principalmente, com a saúde.

Os cuidados com o nosso corpo exigem uma atenção especial, embora a grande maioria seja negligente e se achem inatingíveis de qualquer adversidade. Essa atenção serve para todos, e muito, mas muito mais, para as pessoas com deficiência em geral.

Paraplégicos (que é o meu caso) não têm sensibilidade, da altura da lesão para baixo, que é um sistema de alarme e defesa do corpo. Olho aberto, é pouco.

Experimentei a falta desse sistema de alarme de forma triste e perigosa tentando fazer um almoço com receita própria (adoro cozinhar, principalmente tomando um bom vinho).

Minha esposa viajou para Portugal, para passar 15 dias na casa de nossa filha, portanto, a cozinha ficou minha, só minha !

Então, panela no fogo, linguiça calabresa fresca e sem pele para dar uma douradinha com alho e cebola. Em seguida cebola picadinha, tomate sem semente picadinho, uma colher de massa de tomate, e pronto, só acrescentar o macarrão, ao dente, que já estava separado e lá está uma macarronada que nem a mamãe sabe fazer.

Para fazer essa maravilha, preciso baixar a panela, apoiar em cima de uma tábua de carne no colo e dar uma mexidinha, pois o fogão é alto. Cuidado com o colo, mas esqueci da barriga. Só bastaram poucos minutos, queimadura de segundo e terceiro grau, precisei fazer cirurgia no local… Acreditem !

Caso parecido, aconteceu com um amigo (tetraplégico), que estava na cozinha  conversando com a esposa que acabava de tirar um bolo do forno. Papo bom e ela observou:  “que cheiro é esse ?… Não estou assando carne”.

Coitado, tinha deixado o pé embaixo do fogão. E corre todo mundo para o hospital.

Todo cuidado com elevadores, também é pouco. Cadeirante, minha amiga saiu de costas e não viu que o elevador tinha parado fora do nível… uma diferença de alguns centímetros, bastou, capote para trás, quase tetra duas vezes.

Olhar sempre, e quando não dá para olhar, sentir é uma saída. Meu amigo, com deficiência visual, foi entrar no elevador, percebeu um ventinho amigo (tem ventinho traiçoeiro também) parou, examinou com cuidado e só tinha o buraco, o elevador não estava lá.

E um outro amigo, totalmente independente, nem aceita ajuda. Foi entrar no carro em uma ladeira, a transferência foi ótima, mas, esqueceu de frear a cadeira. Deu para admirar a bichinha descendo uns 100 metros para baixo na rua.

Também, não é ser enjoado, escolher quem vai te ajudar quando for preciso, se der, é sempre bom não é ? Eu pedi para um rapaz, que passava, guardar minha cadeira no porta malas depois de entrar em meu carro, não escutando nenhum barulho, olhei pelo retrovisor e vi o homem indo embora com a cadeira… Gritei… Gritei mais alto… ele se virou e fez aquele gesto conhecido batendo uma mão aberta na outra fechada, que significa: “você se ferrou”!

Mas… Ufa ! Era brincadeira, ele voltou e disse que seu irmão era paraplégico e sempre apoquentava o mano dele… que gracinha. Só que não !

Aquele meu amigo que deixou a cadeira rolar ladeira abaixo é mestre em empinar, ele anda muitos metros, se deixar, quilômetros só com duas rodas. Então, confesso que ai me bateu a inveja… e fui tentar, descobri uma coisa maluca: minha cabeça é de fibra de vidro !

Quantas vezes fiquei  pendurado entre o banco do carro e a cadeira por não caprichar na transferência. Perdi a conta das infecções urinárias (o inferno dos lesados medulares). Tomamos todos os cuidados:  lavamos as mãos, usamos sondas descartáveis, sondamos de três em três horas, tomamos bastante líquidos, escolhemos o banheiro, trocamos de toalhas e rezamos o terço inteiro… Não tem jeito, ela aparece como um fantasma para atormentar a vida de quem já tem poucos problemas.

Ai amigo, voa para o hospital, caminho que já conhecemos como a palma da mão por conta das repetições. E tome antibiótico !

Depois de alguns anos, a gente vai ficando escolado e passa a ficar mais calmo, mais observador, e por recomendação médica, se não tiver nenhum efeito colateral deixa o fantasma, chamado de infecção urinária. Tem até um nome bacana para esse convívio (bexiga colonizada).

Até uma simples transferência de cadeiras pode ser perigosa e, algumas vezes, constrangedora. Por isso, tome cuidado !

Para quem não conhece, transferência é um movimento lateral com um leve salto para mudarmos de cadeiras, um pequeno impulso. Eu terminei de tomar banho, me enxuguei e fui me transferir, ainda pelado, da cadeira higiênica para a cadeira de uso no dia-a-dia, sob a observação atenta de minha esposa que estava no quarto.

Quando saltei de uma cadeira para outra… só escutei o grito dela: “Cuidado com o saaaaccoooooo” !!!

Aí realmente senti… percebi… a importância de ficarmos atentos a tudo. É… Tome cuidado !… Sempre !!!

  Roberto Rios é jornalista, cadeirante e apresentador de TV. E-mail: [email protected]