Turismo religioso x Acessibilidade

Durante todo o ano, milhares de pessoas visitam destinos religiosos por diversos países em todo mundo. Provação, devotismo, superação ou simplesmente turismo, mas o ponto comum da maioria desses destinos é a falta de acessibilidade e inclusão. Isso mostra uma enorme contradição, pois, quando falamos de superação e de desafios, sempre vem à mente uma cadeira de rodas, muletas, bengalas etc.

Não estou defendendo que o patrimônio histórico ou as tradições – muitas vezes milenares – não devem ser preservados, mas até quando continuaremos segregando ‘pessoas’ em detrimento a inclusão ? Até onde vai o ‘direito de ir e vir’ proposto pela ONU na Convenção dos Direitos Humanos de 1948 e reforçado pela nossa Carta Magna e Constituição de 1988 ?

A OMS – Organização Mundial de Saúde estima que até o ano de 2030 mais da metade da população adulta mundial será composta por idosos. O avanço da medicina tem proporcionado cada vez mais longevidade, mas será essa população quem mais vai querer conhecer o mundo e usufruir desse turismo. Trabalhar anos até se aposentar e, depois, ser privado desses direitos é uma enorme contradição !

Mas por que isso ocorre em pleno Século XXI ?

A resposta é muito simples ! As pessoas com diversidade funcional – PCD e mobilidade reduzida não são vistas como consumidores. A iniciativa privada e o poder público não adequa ou concebe seus projetos respeitando o desenho universal e no caso do Brasil, as normas de acessibilidade da ABNT.

Caminhos e destinos religiosos movimentam bilhões de dólares por ano no mundo todo.

Recentemente o Brasil regulamentou o artigo 45 da LBI – Lei Brasileira de Inclusão. Se determina que a rede hoteleira cumpra as normas de acessibilidade e disponibilize de 5 a 10 % de suas acomodações e adeque todas as áreas comuns, como recepção, restaurante, áreas de lazer etc.

Mas isso é suficiente para garantir uma experiência inclusiva ?

A resposta é NÃO !

A maioria desses destinos possuem edificações antigas, templos, igrejas, prédios históricos normalmente tombados.

Outro tipo de destino bem explorado são os ‘caminhos’, como o caminho de Santiago de Compostela e Caminho da Fé, alguns desses roteiros de turismo religioso.

Esses destinos são compostos por rotas, hotéis, pousadas, templos, igrejas e pontos de apoio. Mas a maioria deles não possui adequação para cadeirantes, cegos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Essas rotas normalmente representam a principal fonte de rendas de diversas famílias e normalmente estão localizadas em regiões rurais e rústicas.

No Brasil temos diversos desses destinos

Em agosto deste ano vou acompanhar uma equipe liderada por um expert e pioneiro desse tipo de turismo: Thiago Fadel. Ele irá liderar uma equipe de 10 pessoas que irão auxiliar uma cadeirante em uma handbike que percorrerá o Caminho da Fé, que parte de Águas da Prata/SP até Aparecida/SP.

Jucemar Rodrigues de Souza, outro especialista nesse tipo de turismo já levou mais 200 pessoas por essas trilhas e estradas de terra e também realiza os Caminhos da Prece, do Frei Galvão e dos Anjos.

O Caminho da Fé representará uma enorme oportunidade de apresentar para a sociedade – de uma forma geral, o quão importante é acessibilidade no processo de inclusão e quanto a diversidade é capaz de enriquecer, processos, culturas e quebrar o paradigma de que as ‘diferenças’ são incapacitantes.

Durante todo o percurso iremos catalogar os locais acessíveis e entregaremos nossa cartilha de Acessibilização – patrocinada pelo Instituto Nissan – aos demais estabelecimentos, sugerindo como adequar os espaços públicos.

A cada ano conquistamos um pequeno passo em benefício de uma sociedade mais inclusiva.

Detectar esses gargalos dos diversos setores é a melhor forma de colocar luz a um tema tão relevante e que é tratado como ‘sujeira para debaixo do tapete’.

A economia depende da diversidade e desprezar 45 milhões de pessoas no Brasil e 1 trilhão de pessoas no mundo é um grande equívoco.