Um jantar cego… Vamos ?

Já ouvimos dançando no escuro, andando no escuro, falando no escuro, comendo no escuro e outras expressões. Sabemos que essas situações acontecem com quem está sem a visão dos olhos. Porém, será que quem enxerga já experimentou todas essas situações juntas ? Quem é curioso e fechou os olhos, quem brincou de “cabra cega”, quem ficou sem a energia elétrica em casa ou outro local, já experimentou um pouco dessa experiência, por um tempo limitado. Quem é profissional da área e já ficou com venda nos olhos por muito tempo na formação ou especialização também já experimentou. Porém, o dia a dia de pessoas com deficiência visual, como é ? Só vivendo nessa situação para sabermos realmente como é. Com experiências temos uma idéia sim, mas só quem passa sabe.

Existem iniciativas muito válidas em que são feitas atividades no escuro. Projetos e programas são realizados com sucesso, promovendo discussões sobre acessibilidade e inclusão, conscientização e sensibilização e outros temas importantes. Com uma proposta diferente das que já conhecemos tive o privilégio de participar de um outro projeto que aconteceu por 3 meses em São Paulo: o “Jantar Cego” !

Com uma programação e público diferenciados, o cardápio requintado (cardápio surpresa, só revelado após o jantar), com couvert, entrada, prato principal, sobremesa, harmonização com vinhos (opcional), desenvolvido por um chef e servido por garçons cegos, com cantores cegos profissionais cantando ao vivo (sob regência da cantora Sara Bentes, também cega) e humor em um ambiente totalmente escuro, sem o uso de vendas nos olhos, aconteceu com os mesmos produtores do Teatro Cego (Caleidoscópio), em parceria com um restaurante renomado na Zona Norte de São Paulo: esse foi o “Jantar Cego”!

Entrar e permanecer por 2 horas em um ambiente sem enxergar nada, sentar à mesa e degustar pratos requintados, ouvir música de qualidade, entrar em contato com pessoas desconhecidas, relacionar-se com elas, dançar e retornar à sua mesa, tomar vinho ou suco, ouvir conversas paralelas e garçons com atendimento de classe, parece simples.
Derrubar a taça de vinho mesmo sabendo onde estava ou ser molhada pela taça que o outro derrubou, perder a comida no prato ou colocar o garfo vazio na boca achando que estava com comida, brincar que a batata estava andando no prato para assustar o outro, conversar…  foram situações inusitadas e “tranquilas”. Ousar sair da cadeira para dançar ao som da banda, rodopiar, perder o equilíbrio, rir ao esbarrar no outro entre braços e abraços, estando livre de julgamentos por estarem todos na mesma situação e buscar seu assento de volta, pois ainda faltava chegar a sobremesa… foi um tempo “incrivelmente” especial. Uma experiência gastronômica juntando com outros sentidos que tantas vezes se perdem com o uso da visão.

Interessante presenciar a identificação das pessoas após o jantar no ambiente externo, regado com um bom café. Ouvir um “prazer em conhecer você” foi comum, mas… já não nos conhecemos durante o jantar ? Hum… sem a visão não nos conhecemos ? Será que existe interferência ?

Reflexão

Não houve discussão sobre o que foi vivenciado por cada um. Não foi necessário, nem era a proposta. Cada um estava em seu momento coletivo, mas também particular. A reflexão de cada um sobre o que vivenciou entre troca de contatos entre os participantes, a mudança de olhares em relação a si e ao outro, com certeza proporcionaram mudança de vidas, mesmo com quem já tinha experiências nesse aspecto. Quando enxergamos as nossas limitações compreendemos as do outro e vice versa. Para uns a dificuldade da falta da visão, derrubando coisas, por exemplo. Para outros, outras habilidades, pois já estão acostumados com a falta de visão. Ao me relacionar com o outro descubro a mim mesmo, com erros e acertos em cada novidade, aprendendo, reaprendendo… não existe perfeição. Somos iguais, mesmo com as diferenças.

Uma história hilária (entre tantas) que aconteceu e que se soube depois, foi a história de um casal que fazia aniversário de namoro e foi comemorar lá nesse dia. A moça estava contrariada, pois esperava algo à luz de velas (risos). Porém, a experiência do jantar fez com que essa vivência fosse uma das mais românticas para o casal, em que ambos se “viram” no escuro sem defesas, com apenas sentimentos. Daria para contar muito mais sobre as ricas experiências, mas nada melhor do que vivenciá-las.

É assim que eu acredito e já escrevi há tempos que podemos também ser “INDEPENDENTES VISUAIS” (by Suely), ou seja, nós não dependemos da visão para conhecermos uns aos outros, nem para comermos, pensarmos, sentirmos, agirmos, sermos e… vivermos !

“Que essa visão se abra para vermos as maravilhas da vida…” (David) Mais reflexões…

Ah… e o jantar ? Segundo o produtor Luiz Mel, a data prevista para a próxima temporada do “Jantar Cego” será no primeiro trimestre de 2019. Aguardem a reedição, revista e atualizada, com muitas novidades ! A Revista Reação participou e recomenda !

Mais informações e contato: www.caleidocultura.com.br – E-mail: [email protected]